domingo, 11 de junho de 2017

DIÁLOGO ENTRE A SOMBRA E O VIAJANTE

Foto: Albio Fabian, 11.jun.2017

A sombra — Faz tempo que não te ouço falar; assim, gostaria de te dar a oportunidade.
O viajante — Pois, é de falar – onde? E quem? Parece-me que me ouço falar a mim mesmo, somente com uma voz mais fraca ainda do que já o é.

A sombra (depois de uma pausa) — Não ficas satisfeito por ter uma oportunidade de falar?
O viajante — Por Deus e por todas as coisas em que não creio, minha sombra fala: eu a ouço, mas não acredito.
A sombra — Vamos admitir que seja isso mesmo e não pensemos mais nisso! Em uma hora estará terminado.
O viajante — É justamente o que eu pensava, quando numa floresta perto de Pisa, vi inicialmente dois, depois cinco camelos.
A sombra — É bom se nós dois formos igualmente pacientes para conosco mesmos, uma vez que nossa razão se cala: desse modo não teremos palavras amargas na conversa e não vamos apertar os polegares um contra o outro se, por acaso, suas palavras nos forem incompreensíveis. Se não soubermos responder de imediato, já é muito que se diga alguma coisa: é a condição mínima que ponho para dialogar com alguém. Numa conversa um pouco longa, até o mais sábio se torna uma vez louco e três vezes mesquinho.
O viajante — Tua modéstia não é lisonjeira para aquele a quem o confessas.
A sombra — Devo, pois, elogiar?
O viajante — Eu pensava que a sombra do homem era sua vaidade, mas esta não perguntaria: “Devo, pois, elogiar?”.
A sombra — A vaidade do homem, por quanto a conheço, não pede tampouco, como já o fiz duas vezes, se ela deve falar: ela fala sempre.
O viajante — Observo primeiramente como sou descortês para contigo, minha querida sombra: ainda não te disse palavra de como me alegro em te ouvir e não somente em te ver. Certamente saberás que amo a sombra como amo a luz. Para que haja beleza do rosto, clareza da palavra, bondade e firmeza de caráter, a sombra é tão necessária quanto a luz. Não são adversárias: antes, elas tomam amigavelmente a mão uma da outra e quando a luz desaparece, a sombra foge atrás dela.
A sombra — Eu odeio o que tu odeias, a noite; gosto dos homens porque são discípulos da luz e me alegro com a claridade que está estampada em seus olhos quando conhecem e descobrem, essas infatigáveis conhecedores e descobridores. Essa sombra, que todos os objetos mostram, quando o raio do sol da ciência cai sobre eles – eu sou essa sobra também.
O viajante — Creio te compreender, embora te sejas também expressado talvez um pouco à maneira das sombras. Mas tinhas razão: bons amigos se dão um ao outro, aqui e acolá, como sinal de compreensão que, para qualquer terceiro, deve ser um enigma. E nós somos bons amigos. Por isso, chega de preliminares! Algumas centenas de perguntas pesam sobre minha alma e o tempo que terias à disposição para responder a elas talvez seja muito curto. Vamos ver sobre que vamos falar com toda a pressa e em paz total.
A sombra — Mas as sombras são mais tímidas que os homens: não irás compartilhar com ninguém a maneira pela qual conversamos juntos.
O viajante — Da maneira que falamos juntos? Que o céu me livre dos diálogos que seguem longamente seu fio e por escrito! Se Platão tivesse sentido menos prazer em tecer esse fio, seus leitores teriam sentido mais prazer em ouvir Platão. Uma conversa que na realidade alegra é, ao ser transcrita e lida, um quadro cujas perspectivas são falsas: tudo é muito longo ou muito curto. – Entretanto, eu poderia talvez fazer parte desse “sobre que” estamos nós de acordo?
A sombra — Isso me deixa contente, pois, todos só reconhecerão nisso tuas opiniões: na sombra, ninguém haverá de pensar.
O viajante — Não te engana talvez, amiga? Até aqui, em minhas opiniões, tratamos mais da sombra do que de mim mesmo.
A sombra — Mas da sombra que da luz? Será possível?
O viajante — Sê seria, cara doida! Minha pergunta já exige seriedade.

Friedrich Wilhelm Nietzsche, in prefácio de O Viajante & Sua Sombra.