sexta-feira, 19 de maio de 2017

O VINGADOR DONO DA BOLA


O Vingador foi um personagem do desenho Caverna do Dragão. Um personagem controverso. Muitos afirmavam que ele personificava o inimigo, algumas teorias da internet dão conta de versão contrária. Porém, com um nome moralmente questionável, a ideia de vingança é sempre mais forte. Não vejo beleza na vingança. Como diria o filósofo do oito, “a vingança nunca é plena, mata alma e a envenena”.

O futebol de infância me lembra da figura emblemática do “dono da bola”. Muitas vezes, o dono da bola era o pior jogador do time. Ele só conseguia lugar em campo, ou certo destaque, por possuir a bola. Jogávamos sem campo, sem chuteiras, sem camisa, sem time completo, mas nunca sem bola. Então, o dono da bola era peça fundamental para garantir a diversão. Por pior desempenho, nos submetíamos as mudanças de regras, as reformas de jogo propostas pelo dono da bola.

O editorial do Jornal do Brasil, ontem, 18, foi muito feliz. Ele afirmou, “como podem senhores, desonestos e desqualificados de dignidade, ocuparem cargos públicos ou mandatos parlamentares e opinarem sobre o destino do país, participando da administração pública direta ou indireta ou votando no Legislativo. Votando leis que, segundo o que se vê nas delações, eram apreciadas sob a forte interferência de segmentos empresariais. O país não pode admitir que haja um Congresso que vote subornado por empresários, fundamentalmente em momentos em que profundas reformas estão sendo votadas, nas quais o trabalhador e o povo sofrido são o objetivo fundamental.”

Admitimos desonestos governantes porque eles possuem a bola. E quando o desqualificado ingressa no time, a brincadeira perde a qualidade. Fizemos com as mesmas vistas grossas a pelada de infância nossa vida política. Somos parte de um sistema viciado, com uma justiça torpe plena de eleitores, no mínimo, inocentes. Inocentes em aceitar passivamente o uso de Caixa 2 para eleições e mesmo assim votar nestes desonestos candidatados e escandalizar-se que o vice-presidente golpista seja alvo de delações. Ele é o dono da bola e só está no poder porque fez uso de estratégias reprováveis. Mas os imbecis de plantão culpam outros e escandalizam-se pelo óbvio e acreditam em esperança.

O nome que articulou uma manobra midiática parlamentar de mudança. O nome que orquestrou uma reforma que cassava direitos como um gato caça o rato, com afinco, mas nenhuma clemência. O nome de uma figura arrogante, que possui a menor aprovação da história do país, que vai as telas dizer que não renuncia. Não há reconhecimento de sua legislatura, depois do dia de ontem, que justifique a manutenção deste nome no Planalto Central. Nem mesmo ser dono da bola pode ser assim.

Fora Temer é um grito que não pode cessar. Entretanto, os candidatos imediatos a dona da bola não gozam de um passado de honestidade. Largamente citados em delações (questionáveis) possuem um histórico de vitórias e vitórias em eleições, e chegam ao poder como um amor ao próprio poder e pouco respeito ao povo pobre que os elegem. Estes macabros usurpadores de direito denigrem nossas instituições. Diante de tudo isso, parece-me que “memes” são a única instituição em pleno funcionamento na terra brasilis.


Em tanto escândalo, a fala mais sóbria vem de Tite, treinador da Seleção Brasileira, pela ocasião da convocação dos jogadores brasileiros, no dia de hoje, 19: “peço que não brinquem mais com isso. Eu me sinto desconforável. Não brinquem com isso, e não peço por falsa modéstia. Eu não quero ter essa responsabilidade". Em nossa falsa democracia, da aceitação do corrupto, encontramos um nome, que inspira convicção, pela sua vida apolítica. Isso é prova do desespero que toma conta do nosso dia a dia. É triste tudo isso. Mas é preciso ter calma com Tite. Ele parece um profissional muito competente, mas presta serviço para uma gentinha que também gosta de ser dona de bola.