quinta-feira, 4 de maio de 2017

A PRESENÇA DO CATEQUISTA DIANTE DA BALEIA AZUL

O que motiva a reflexão deste texto é a proliferação irresponsável e dos diversos comentários feitos a partir do desafio, sensacionalizado como fato novo, chamando Baleia Azul. Não tenho aqui a intenção apontar questões psicológicas, mas convidar as/os catequistas e outros agentes de pastoral a uma reflexão sobre o mundo que nos cerca. Pensar a vida em primeiro lugar reconhecendo as fragilidades das “verdades” que são construídas a partir dos meios de comunicação de massa e especialmente as redes sociais.

O papa João Paulo II, ao longo de seu pontificado (26 anos), por diversas vezes denunciou com ênfase a cultura da morte. Ao naturalizar a morte como uma ação provocada pelo homem, através das guerras, da drogadição ou da violência, a humanidade relativiza a vida humana. Tal comportamento semeia uma ação perigosa que conclui com frutos podres, como o desafio da Baleia Azul, por exemplo.

O suposto desafio consiste num jogo macabro (obscuro, amedrontador) onde o partícipe, ao longo de etapas, cumpre tarefas, como automutilação e flagelação até chegar ao próprio suicídio. Tudo exposto pelas mídias sociais. O jogo é antigo, porém, nas últimas semanas, por meio de uma ação irresponsável de um canal de televisão, houve uma proliferação sensacionalista e irresponsável do desafio.  A ação tem origem na Rússia, que por sinal é um dos países com maior percentual de suicídio juvenil do mundo. A irresponsabilidade do canal de televisão concentra-se na busca de culpados para entender a relação entre jovens e naturalização da morte. Ao buscar e apontar um culpado, elimina-se a ação de reflexão que o próprio fato esconde: a relativização da vida.

O bispo auxiliar de Porto Alegre, Dom Leomar Antônio Brustolin, com olhar sóbrio, ao comentar o desafio mortal afirmou, “não basta se escandalizar com o terrível jogo mortal Baleia Azul é preciso avaliar o tipo de vida que estamos levando e obrigando as futuras gerações a viverem”. A busca de culpados elimina nossa responsabilidade frente às gerações jovens. Ao defender publicamente tudo o que causa morte, como bebidas, drogas, comportamento irresponsável, em certo grau, provocamos a busca pela demonização da vida. A demonização não está nas conexões das mídias sociais, não está na família, não está na sociedade, está nas decisões diárias em que excluímos Cristo.

O documento Amoris Laetitia, n. 83, afirma que “a família é o santuário da vida, o lugar onde a vida é gerada, e cuidada, constituindo uma contradição pungente fazer dela o lugar onde a vida é negada e destruída”. É contraditório quando o espaço do cuidar tornar-se um lugar do descuidado, da perda e da alienação. Um desafio que predestina a morte é a marca forte do descuido. Não do fato em si, mas de tudo o que envolve ao fato até chegar a morte. Quando o jovem encontra na autodestruição uma perspectiva, evidencia sérias lacunas que já há tempos. Não é coisa dos últimos dias apenas. É uma linha histórica.

É um desafio ao catequista perceber o cuidado, o afeto e a necessidade de significado que a vida humana necessita em cada encontro. Não pode ele ser um reprodutor de ideias difundidas pela televisão, ou um transmissor de falsas verdades de mídias sociais, precisa ele ser um portador da vida a partir da Sagrada Escritura. Diante do questionamento de Tomé, acerca de qual caminho devemos seguir, o próprio Jesus afirma “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (João 14,6).  A iluminação frente às dificuldades e a desvalorização ou relativização da vida, para o catequista de modo especial, e para todo fiel deve brotar da Palavra de Deus. Uma perspectiva de fé, acima de tudo, elimina um discurso de culpabilização e de demonização da vida, conforme vivenciamos nos últimos dias

O alerta do desafio da Baleia Azul é para todos, aponta para a necessidade de um novo olhar sobre a vida, conectado, mas não alienado; informado, mas não desafetado; livre, mas não narcísico” (Dom Leomar Antônio Brustolin).