quarta-feira, 19 de abril de 2017

COMO É DIFÍCIL PENSAR FORA DA CAIXA

Ontem vivi uma experiência diferente em sala. No Ensino Superior, minha turma de terça estava numa sala alternativa, sem cadeiras, projetor, mesa ou qualquer outro artifício “pedagógico”. Havia apenas uma sala pequena, muitas almoçadas e um miniquadro com três meios-bastões de giz.

Havia a possibilidade de ficar naquele espaço ou retornar para sala tradicional.

Preparei uma aula expositiva com recursos visuais por meio do Power Point, sem saber do espaço.

Confesso que no primeiro momento, pensei em sair da sala. Não ficar nela. Cheguei o espaço estava com apenas duas estudantes, os demais estavam no intervalo. Sentei no chão, contemplei o espaço e pensava na dificuldade de lecionar sem mesa e projetor. Enquanto divagava as duas meninas, conversavam. Penso que era uma conversa triste, ouvia as vozes de fundo, sem interpretar suas falas, mas centrada em minha crise didático-pedagógico.

Segundo Guattari e Rolnik*, “a noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo [...]. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo, tanto a um espaço vivido quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente em casa” (p. 323). Sentir-se em casa num espaço fora da caixa. Quanta dificuldades temos. Então para pensar a minha aula, tomei os três meios-bastões de giz, no miniquadro e escrevi toda minha exposição em Power Point nele. Sentei no centro da sala, fechando o círculo de almofadas, coloquei o computador na frente dos olhos e então conversamos sobre o tema da noite.

Construiu no espaço de linhas difusas um território. Não aquele proposto pela sala, mas o meu. Conduzi os estudantes para a minha aula dentro do meu território. Impedi que os fluxos possíveis desenhados pelo espaço fossem concretizados. É difícil desterritorializar. Mesmo quando é preciso pensar fora do convencional, direcionamentos as linhas para nossa segurança.

Não farei um mea-culpa, mas quero chamar atenção pelas dificuldades que nós, professores, temos um criar espaços de criatividade fora da caixa. Desterritorializar como Guattari e Rolnik sugerem. Pensamos e julgamos os processos de ensinar e aprender centrados em determinadas seguranças, que a simples ausência de uma mesa e de um projetor significam incômodos. Por que pensamos educação apenas em espaços territorializados? O desafio do educador é propor um pensar nômade e criativo. Como diria Millôr Fernandez, o poeta do humor, “live pensar, basta pensar”. Mas como ser livre se estamos centrados em espaços rígidos?

Para Deleuze ** o território é fundamental para o animal. Para ele todo animal tem um espaço específico de sobrevivência, o ambiente do grupo. O animal vive num espaço reduzido de mundo. Mas o homem vive no mundo, em todos os espaços. Se assim o vivemos, porque burocratizamos os espaços? Demarcamos territórios e na ausência deles nos surpreendemos?

Pensar fora da caixa, fora dos padrões nos exige desterritorializar o obvio.

* GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.
** DELEUZE, G. 2002. L’Ile Deserte et d’autres textes: textes et entretiens 1953-1974. Paris: Ed. 
de Minuit.