sábado, 28 de janeiro de 2017

ESTAMOS EM GUERRA

Por Peter Pal Pelbart *

Estamos em guerra. Guerra contra os pobres, contra os negros, contra as mulheres, contra os indígenas, contra os craqueiros, contra a esquerda, contra a cultura, contra a informação, contra o Brasil. A guerra é econômica, política, jurídica, militar, midiática. É uma guerra aberta, embora denegada; é uma guerra total, embora camuflada; é uma guerra sem trégua e sem regra, ilimitada, embora queiram nos fazer acreditar que tudo está sob a mais estrita e pacífica normalidade institucional, social, jurídica, econômica. Ou seja, ao lado da escalada generalizada da guerra total, uma operação que a abafa em escala nacional. Essa suposta normalização em curso, essa denegação, essa pacificação pela violência — eis o modo pelo qual um novo regime esquizofrênico parece querer instaurar sua lógica, em que guerra e paz se tornam sinônimos, assim como exceção e normalidade, golpe e governabilidade, neoliberalismo e guerra civil. Nada disso é possível sem uma corrosão da linguagem, sem uma perversão da enunciação, sem uma sistemática inversão do valor das palavras e do sentido do próprio discurso, cujo descrédito é gritante.

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“A revolução é da ordem da cólera e da alegria, não da angústia e do tédio.” A cólera se dirige contra aqueles que destroem impiedosamente o que nos é caro, devastam nossa riqueza natural, social, subjetiva, afetiva, política. De fato, formou-se uma aliança de interesses que, em poucos meses, virou a mesa da suposta democracia da maneira mais brutal, comparável talvez ao assassinato dos irmãos de Witt em 1672, que governavam os países baixos no século XVIII, e que fizeram Espinosa soltar o único grito urrado de que se tem notícia saído daquele homem que diziam ser tão suave e sereno. Cólera, pois, contra o cavalar revanchismo que vai destruindo dia a dia o pouco que se havia conquistado nos últimos treze anos, numa sede insana de dilapidação, num desejo de extermínio vindo do conluio das várias máfias que se aliaram nessa política de terra arrasada.

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Se a cada dia parecemos mais vencidos, a derrota tem ao menos esta vantagem: ela nos força a pensar — e a pensar de outra maneira. É preciso fazer valer tal ocasião.

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É preciso fazer proliferar uma outra sensibilidade micropolítica, macropolítica, biopolítica, ecopolítica, cosmopolítica, dar nome aos bois, romper um consenso que nos quer abduzir a capacidade de pensar. Sim, fazer do pensamento uma conspiração cotidiana, uma insurgência indomável.

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Não é bom, em meio a um contexto tão sinistro, deixar-se afundar no catastrofismo melancólico e derrotista. Porque todo poder visa também a isto: nos separar de nossa força, nos inculcar a tristeza, a angústia, o medo, a culpa e sobretudo a sensação de impotência. Mas o poder não é um domínio absoluto, é uma relação de forças, sempre móvel, e assim comporta sua dose de jogo e margem de indeterminação — e portanto de reversibilidade. Se Foucault nos serve para pensar a resistência nessa chave da reversibilidade eventual das forças em jogo, talvez seja preciso também recorrer a Espinosa, que diferenciava poder e potência, e até os opunha. Por isso, talvez trate-se menos de apenas tomar o poder do que de expandir a potência. Menos tentar ocupar o lugar daqueles que tomaram de assalto o Estado do que ocupar ruas, praças, escolas, instituições, espaços públicos privatizados, experimentar novas formas de organização, de auto-organização, de sociabilidade, de produção, de despossessão, de subjetividade, de dissidência, de composição da vida. É preciso destituir a corja de bandidos que sequestrou o Estado, quebrar o monopólio das corporações que os sustentam — mas como fazê-lo sem entrar no jogo em que saímos vencidos de antemão? Talvez ainda não se tenha inventado máquinas de guerra à altura da eficácia da megamáquina que se instalou, e que vem de longe, no tempo e no espaço. Seria preciso produzir máquinas de guerra que, ao lado de sua eficácia, criassem outras coisas, outros espaços, outros tempos, outra subjetividade — em suma, outro tabuleiro onde pudessem enfrentar-se os novos desafios.

Quando passamos para esse registro mais ativo, por mais bélicas que pareçam essas imagens, não se pode fazer a economia da alegria. A alegria, dizia Espinosa, nada mais é do que a expressão de um aumento de potência. Ela está necessariamente presente ali onde as conexões se expandem, se multiplicam, abrem novas direções, criam novos modos de expressão, e produzem uma conversão subjetiva.



* Peter Pál Pelbart é professor titular de filosofia da PUC-SP, autor entre outros de O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento e coeditor da editora N-1