quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CRÍTICA A TERCEIRA TEMPORADA DE EMPIRE: MORTE E PODER

Aviso: esta postagem contém revelações sobre o enredo.



Ao longo da madrugada quente de verão terminei a terceira temporada de Empire. As duas primeiras temporadas foram televisionadas pelo Fox Life, e agora, a terceira pelo canal premium Fox1. A temporada tem ponto inicial e final na morte. A segunda termina com a briga entre Anika e Rhonda e quando uma das duas cai de uma altura que leva a morte. Primeiro capítulo revela a morte de Rhonda, que é o tom dado ao longo de toda a nova temporada. Com ela, chega ao ponto onde André e Shine mencionam a morte de Lucius como propósito futuro, e assim marca o final da terceira temporada. Durante todo o percurso da morte é um elemento presente, senão em personagens que desaparecem por conta de ações de gangster ou pela libertação de André, ou ainda pela recuperação da história do pai de Cookie e a dor da culpa, a morte é vista como elemento de transição ou de necessidade do poder. A libertação de André se inicia com sua caminha caminhada religiosa na segunda temporada e o coroa na terceira, se não pela vida em Cristo, mas pelas mãos da maldade e da conquista pelo poder, de Deus a mão do Diabo. Morte, poder e culpa são elementos mais fortes que a música nesta temporada.

A saga, ora por citação de Lucius, ora pelas ações criminosas carrega uma linha de proximidade com o clássico “O Poderoso Chefão”. Família, poder, drogas, controle, persuasão e métodos moralmente questionáveis são chaves deste ponto.

Nicolau Maquiavel, no capítulo V do Príncipe, para uma Itália do século XV, escreve que há três formas de preservar a posse dos Estados acostumados a governar por leis próprias. A primeira forma é devasta-los; a segunda morar neles e a terceira forma permitir que vivam com suas leis, arrecadando um tributo e formando um governo de poucas pessoas. Neste aspecto é possível classificar a terceira temporada de Empire como maquiavélica*.

Lucius devasta toda forma de concorrência, mostra como o controle da informação é necessário para a conquista e manutenção do poder. Usa a mãe esquizofrênica, as informações da infância de Tariq, seu meio-irmão, contra a investigação do FBI sobre a Empire; manipula a candidatura de Ângelo com seu interesse em atingir Cookie. O tempo inteiro devasta o que está ao seu redor pelo controle das informações. Com esta prática, André, alternando os momentos de equilíbrio mental, usa da informação para promover-se dentro a empresa. A moradia é marcada, tal qual um cachorro demarca território. O nascimento de Bella, filha de Haakkin com Anika, é a simbologia da moradia. Lucius traz para dentro de sua casa, sua esposa Anika, o que fragiliza a investigação do FBI, ao mesmo tempo alimenta a cobra para ações de seu interesse. Anika não está apenas na Empire, mas dentro do espaço sagrado de Lucius, espeço que muitas vezes ele cita como lugar de sobrevivência às ruas. A ocupação da morada é a simbologia da sobrevivência do sem teto, que pela droga e pela música, construiu, um lugar de recolhimento e do sexo devasso. Ser negro é ter moradia e isto os difere dos outros negros da série. Um espaço onde o controle da lei e da moralidade não penetram. Com a terceira forma chego em Jamal. Ao longo da temporada ele desenvolve transtornos de stress pós-traumático e entrega-se ao vício de drogas sintéticas. Lucius e Cookie permitem que Jamal extrapole todos os limites e usam o vício de Jamal em remédios para guerra constante de egos. Até a parte final quando ele é forçado a internar-se em reabilitação Jamal é uma peça de tabuleiro, sem vontade própria.

Não há uma preocupação com a moralidade, com a legalidade. A série é uma ação que margeia qualquer bom princípio e o crime, até esta temporada compensa. Mas ele está sempre tocando o limite e colocando todos com nervos a flor da pele. Não há paz, segurança e conquista humana, apenas o poder pelo poder na ausência de qualquer tipo de liberdade. E pela forma como a temporada termina, a quarta temporada deverá subir o tom do sangue, seja pelos espaços de moradia que Shine consegue, pela relação de Ângelo com Cookie ou ainda pela defesa diante de Lucius que o inimigo velado que se move dentro da Empire, André.

Recomendo? Não sei. O tema é pesado demais.


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p.s.: tenho restrições a forma como as pessoas usam “machiavélico”, como se a maldade atribuída a algo a alguma ação fosse algo próprio de Maquiavel. Em nenhum momento da obra, O Príncipe, ele usa da maldade como ação para justificar os fins, os meios justificam o fim, não é uma citação desta obra.