domingo, 7 de agosto de 2016

PARA ONDE VAI A ECOLOGIA?

Texto de Leonardo Boff

Tendências da discussão ecológica atual

Ernst Haeckel, biólogo alemão (1834-1919), criou em 1866 a palavra ecologia e definiu o significado como estudo do inter-retrorrelacionamento de todos os sistemas vivos e não vivos entre si com seu meio ambiente, entendido como uma casa, donde deriva a palavra ecologia (oikos, em grego = casa). De um discurso regional como subcapitulo da biologia, passou a ser atualmente um discurso universal, quiçá o de maior força mobilizadora do futuro milênio. Na abundância de propostas, queremos apresentar, como numa leitura de cegos, as tendências mais relevantes da discussão atual. Ela se dá em quatro formas de realização da ecologia: a ecologia ambiental, a ecologia social, a ecologia mental e a ecologia integral.

Ecologia ambiental

Essa primeira vertente preocupa-se com o meio ambiente, para que não sofra excessiva desfiguração, visando à qualidade de vida, à preservação das espécies em extinção e à permanente renovação do equilíbrio dinâmico, urdido em milhões e milhões de anos de evolução. Ela vê, entretanto, a natureza fora do ser humano e da sociedade. Procura tecnologias novas, menos poluentes, privilegiando soluções técnicas. É importante essa postura, porque busca corrigir excessos da voracidade do projeto industrialista mundial, que implica sempre custos ecológicos altos. Se não cuidarmos do planeta como um todo, podemos submetê-lo a graves riscos de destruição de partes da biosfera e, no seu termo, inviabilizar a própria vida no planeta. Basta que se utilizem as armas nucleares, químicas e biológicas dos arsenais existentes e se continue irresponsavelmente poluindo as águas, envenenando os solos, contaminando a atmosfera e agravando as injustiças sociais entre o Norte e o Sul para se provocar um quadro apocalíptico.

Ecologia social

A segunda -a ecologia social -não quer apenas o meio ambiente. Quer o ambiente inteiro, insere o ser humano e a sociedade dentro da natureza como partes diferenciadas dela. Preocupa-se não apenas com o embelezamento da cidade, com melhores avenidas, com praças ou praias mais atrativas, mas também prioriza saneamento básico, uma boa rede escolar e um serviço de saúde decente. A injustiça social significa violência contra o ser mais complexo e singular da criação, que é o ser humano, homem e mulher. Ele é parte e parcela da natureza.
Segundo essa compreensão, a injustiça social se mostra, portanto, como injustiça ecológica contra o todo natural-cultural humano. A ecologia social luta por um desenvolvimento sustentável. É aquele que atende às carências básicas dos seres humanos de hoje sem sacrificar o capital natural da Terra, tomando em consideração também as necessidades das gerações de amanhã, pois elas têm direito à sua satisfação e a herdar uma Terra habitável, com relações humanas minimamente decentes.

Mas o tipo de sociedade construída nos últimos 400 anos impede de realizar um desenvolvimento sustentável. Ela é "energívora", montou um modelo de desenvolvimento que pratica sistematicamente a pilhagem dos recursos da Terra e explora a força de trabalho. As forças produtivas e as relações de produção são vistas atualmente como forças destrutivas e relações de produção de desequilíbrios ecológicos desproporcionais. Nos quadros atuais, o desenvolvimento sustentável permanece um desiderato e representa uma negação do atual modelo social de produção.

No imaginário dos fundadores da sociedade moderna, o desenvolvimento movia-se dentro de dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do desenvolvimento rumo ao futuro. Essa pressuposição se revelou ilusória. Os recursos não são infinitos. A maioria está se exaurindo, principalmente a água potável e os combustíveis fósseis. E o tipo de desenvolvimento linear e crescente rumo ao futuro não é universalizáve1. Portanto, não é infinito. Se as famílias chinesas quisessem ter o nível de consumo perdulário norte-americano, isso implicaria a exclusão e a morte de milhões e milhões de pessoas.

Precisamos, pois, de mais do que um desenvolvimento sustentável, que encontre para si o desenvolvimento viável para as necessidades de todos. O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem de atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os micro-organismos, pois todos juntos constituem a comunidade planetária em que estamos inseridos, e, sem eles, nós mesmos não viveríamos.


Ecologia mental

A terceira -a ecologia mental -, chamada também de ecologia profunda, sustenta que as causas do déficit da Terra não se encontram apenas no tipo de sociedade que atualmente temos, mas também no tipo de mentalidade que vigora, cujas raízes remontam a épocas anteriores à nossa história moderna, incluindo a profundidade da vida psíquica humana consciente e inconsciente, pessoal e arquetípica,
Há em nós instintos de violência, vontade de dominação, arquétipos sombrios que nos afastam da benevolência em relação à vida e à natureza. Aí dentro da mente humana se iniciam os mecanismos que nos levam a uma guerra contra a Terra. Eles se expressam por uma categoria: o antropocentrismo.

O antropocentrismo considera o ser humano rei/rainha do universo. Considera que os demais seres só têm sentido quando ordenados ao ser humano; eles estão aí disponíveis ao seu bel-prazer. Essa compreensão quebra com a lei mais universal: a solidariedade cósmica. Todos os seres são interdependentes e vivem dentro de uma teia intrincadíssima de relações. Todos são importantes.

Não existe isso de alguém ser rei/rainha e considerar-se independente, sem precisar dos demais. A moderna cosmologia nos ensina que tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e em todas as circunstâncias. O ser humano esquece essa intrincada rede de relações. Afasta-se dela e põe-se sobre as coisas, em vez de sentir-se junto e com elas, numa imensa comunidade planetária e cósmica.

Eis algumas tarefas importantes a que se propõe a ecologia mental: trabalhar numa política da sinergia e numa pedagogia da benevolência, a vigorar em todas as relações sociais, comunitárias e pessoais; favorecer a recuperação do respeito para com todos os seres, especialmente os vivos, pois são muito mais velhos do que nós; e, por fim, propiciar uma visão não materialista e espiritual da natureza que propicie o re-encantamento em face da sua complexidade e a veneração diante do mistério do universo.

Isso somente se consegue se antes for resgatada a dimensão da anima, do feminino no homem e na mulher. Pelo feminino o ser humano se abre ao cuidado, se sensibiliza pela profundidade misteriosa da vida e recupera sua capacidade de maravilhamento. O feminino ajuda a resgatar a dimensão do sagrado. O sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo, pois ele dá origem à veneração e ao respeito, fundamentais para a salvaguarda da Terra. Cria a capacidade de religar todas as coisas à sua Fonte criadora e ordenadora. Dessa capacidade re-Iigadora nascem todas as religiões. Importa hoje ver revitalizadas as religiões, para que cumpram sua função re-ligadora e encontrem expressões religiosas adequadas à nova experiência ecológica, que é ecumênica, holística e mística. A crise ecológica, para ser superada, exige um outro perfil de cidadãos, com outra mentalidade, mais sensível, mais cooperativa e mais espiritual. Eis as boas razões de uma ecologia mental.

Ecologia integral

Por fim, a quarta -a ecologia integral -parte de uma nova visão da Terra, inaugurada pelos astronautas a partir dos anos 1960, quando se lançaram os primeiros foguetes tripulados. Eles veem a Terra fora da Terra. Lá de sua nave espacial ou da Lua, como testemunharam vários deles, a Terra aparece como um resplandecente planeta azul-branco que cabe na palma da mão e que pode ser escondido detrás do polegar humano. Daquela distância borram-se as diferenças entre ricos e pobres, ocidentais e orientais, neoliberais e socialistas. Todos são igualmente humanos.

Mais ainda. Daquela perspectiva, Terra e seres humanos emergem como uma única entidade. O ser humano é a própria Terra enquanto sente, pensa, ama, chora e venera. A Terra emerge, sim, como o terceiro planeta de um Sol que é apenas um entre 100 bilhões de outros de nossa galáxia, que, por sua vez, é uma entre mais de 100 bilhões de outras do universo; universo que, possivelmente, é apenas um entre outros paralelos e diversos do nosso. E nós, seres humanos, evoluímos a tal ponto de podermos estar aqui para falar disso tudo, sentindo-nos ligados e re-ligados a todas essas realidades. E tudo caminhou com tal calibragem que permitiu a nossa existência aqui e agora. Caso contrário, não estaríamos aqui.

Os cosmólogos, vindos da astrofísica, da física-quântica, da nova biologia, numa palavra, das ciências da Terra, nos advertem que o inteiro universo se encontra em cosmogênese. Isso significa: ele está ainda em gênese, constituindo-se e nascendo, formando um sistema aberto, sempre capaz de novas aquisições e novas expressões. Portanto, nada está pronto e ninguém acabou de nascer. Por isso, temos de ter paciência com o processo global, uns com os outros e também conosco, pois nós, humanos, estamos igualmente em processo de antropogênese, de constituição e de nascimento.

Três grandes emergências ocorrem na cosmogênese e na antropogênese: a complexidade/diferenciação (1), a auto-organização/consciência (2) e a re-ligação/relação de tudo com tudo (3). A partir de seu primeiro momento após o Big-Bang, a evolução está criando mais e mais seres diferentes e complexos (1). Quanto mais complexos, mais se auto-organizam, mas mostram interioridade e possuem mais e mais níveis de consciência (2), até chegarem à consciência reflexa no ser humano. O universo, pois, como um todo, possui uma profundidade espiritual. Para estar no ser humano, o espírito estava antes no universo. Agora emerge em nós na forma da consciência reflexa e da "amorização". E quanto mais complexo e consciente, mais se relaciona e se religa com todas as coisas (3), fazendo com que o universo seja realmente universo, uma totalidade orgânica, dinâmica, diversa, tensa e harmónica -cosmos e não caos.

As quatro interações existentes -a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte -constituem os princípios diretores do universo, de todos os seres, também dos seres humanos. A galáxia mais distante se encontra sob a ação dessas quatro energias primordiais, bem como a formiga que caminha sobre minha mesa e os neurónios do cérebro humano com os quais faço estas reflexões. Tudo se mantém ligado e re-ligado num equilíbrio dinâmico, aberto, passando pelo caos que é sempre generativo, pois propicia um novo equilíbrio mais alto e complexo, desembocando numa outra ordem, rica de novas potencialidades.

Conclusão: uma visão holística e libertadora da ecologia

A ecologia integral procura acostumar o ser humano com essa visão global e holística. O golpismo não significa a soma das partes, mas a captação da totalidade orgânica, una e diversa em suas partes, sempre articuladas entre si dentro da totalidade e constituindo essa totalidade.

Essa cosmovisão desperta no ser humano a consciência de sua função dentro dessa imensa totalidade. Ele é um ser que pode captar todas essas dimensões, alegrar-se com elas, louvar e agradecer àquela Inteligência que tudo ordena e àquele Amor que tudo move, sentir-se um ser ético, responsável pela parte do universo que lhe cabe habitar -a Terra.

Ela, a Terra, é, segundo notáveis cientistas, um superorganismo vivo, denominado Gaia, com calibragens refinadíssimas de elementos físico-químicos e auto-organizacionais que somente um ser vivo pode ter. Nós, seres humanos, podemos ser o satã da Terra, como podemos ser seu anjo da guarda bom. Somos corresponsáveis pelo destino de nosso planeta, de nossa biosfera, de nosso equilíbrio social e planetário.
Essa visão exige uma nova civilização e um novo tipo de religião, capaz de re-ligar Deus e mundo, mundo e ser humano, ser humano e espiritualidade do cosmos.

A partir dessa visão verdadeiramente holística (globalizadora), compreendemos melhor o ambiente e a forma de tratá-lo com respeito (ecologia ambienta\). Apreendemos as dimensões da sociedade, que deve possuir sustentabilidade e ser a expressão da "convivialidade'' não só dos humanos, mas de todos os seres entre si (ecologia social). Damo-nos conta da necessidade de superarmos o antropocentrismo em favor de um cosmo centrismo e de cultivarmos uma intensa vida espiritual, pois descobrimos a força da natureza dentro de nós e a presença das energias espirituais que estão em nós e que atuam desde o início na constituição do universo (ecologia menta\). E, por fim, captamos a importância de tudo integrar, de lançar pontes para todos os lados e de entender o universo, a Terra e cada um de nós como um nó de relações voltado para todas as direções (ecologia integral).

Somente no vaivém dessas relações, e não fora delas, nos sentiremos realizados e interiormente serenados, construindo um desenvolvimento com a natureza e jamais contra ela. Importa fazermos as pazes e não apenas dar uma trégua à Terra. Cumpre refazermos uma aliança de fraternidade/"sororidade" e de respeito para com ela. E sentirmo-nos imbuídos do Espírito que tudo penetra e daquele Amor que, no dizer de Dante, move o céu, todas as estrelas e também nossos corações.

Não cabe opormos as várias correntes da ecologia, mas discernirmos como se complementam e em que medida nos ajudam a sermos um ser de relações, produtores de padrões de comportamentos que tenham como consequência a preservação e a potenciação do patrimônio formado ao longo de 15 bilhões de anos. Custosamente ele chegou até nós, e é nosso dever passá-lo adiante, enriquecido, dentro de um espírito sinergético e afinado com a grande sinfonia universal.

REFERÊNCIA:
BOFF, Leonardo. Ética da vida: a nova centralidade. São Paulo: Editora Record, 2009, pág. 11-20