terça-feira, 2 de agosto de 2016

EXPERIÊNCIA EM UM LIXÃO


Estou reorganizando e digitalizando alguns textos de minha biblioteca. Em meio a uns cadernos fotocopiados, encontrei este texto. O escrevi ainda no primeiro semestre de faculdade, ainda em 2000, quando estava na Universidade São Francisco, em São Paulo. Relendo vejo muitos vícios de linguagem, e inocência nas palavras. Mas o relato atualizou ainda o odor da experiência que vivi ao longo de uma semana. Sonhos desconstruídos pelo capitalismo selvagem.

O centro de Triagem de Carapicuíba foi um projeto que poderia ter conseguido dar frutos, mas, infelizmente não foi o que aconteceu. As pessoas que hoje moram neste centro são exploradores do Km 21, onde é jogado o lixo da cidade de Carapicuíba e arredores. As pessoas que ali viviam, tinham como fonte de renda a venda de papel, papelão, garrafas, latas entre outros produtos destinados a reciclagem. Mas se somente estivessem ali por causa dos produtos recicláveis poderíamos até deixar de lado este assunto pois com certeza existiria outros mais importantes. Na verdade, uma das principais causas da permanência deles é também a possibilidade de poder encontrar no meio dos entulhos restos de comida. ''Tem vezes que se encontra carne, o suficiente por uma semana", diz seu Antônio um dos moradores que foram removidos do Lixão para o centro de Triagem que fica na Vila Veloso em Carapicuíba. São mais ou menos em tomo de 60 famílias, dando por volta de 400 a 500 pessoas adultas e 250 crianças.

É muito importante fazer certas considerações para termos em mente o que seria hoje, um ano depois de iniciado o projeto da prefeitura de Carapicuíba. No início eles até que nos ajudavam, mas hoje você nem ouve se quer a palavra ajuda da prefeitura" relata Angélica uma das líderes do centro de Triagem. Para a remoção dos moradores do Km 21 para o centro de Triagem foram feitas várias propostas. A prefeitura prometeu emprego para todos no galpão de reciclagem, mas desde o começo só 15 pessoas começariam a trabalhar, hoje apenas 7 pessoas trabalham com uma renda semanal de 40 reais cada uma. Seria a prefeitura a principal responsável pela ajuda na compra de material e das máquinas necessárias para o centro. As cestas básicas prometidas às pessoas só foram fornecidas durante 6 messes, depois disso não foi feita nenhum outro tipo de doação por parte da prefeitura. A agua e energia elétrica têm sido as únicas coisas que ainda os moradores do centro de Triagem não têm que pagar.

Alguns moradores corno é o caso de seu Orlando 46 anos, diz que a prefeitura os tratou como cavalos postos na cocheira, só que nesta esqueceram de dar o alimento. A creche que hoje funciona no local é mantida por Padre Paulo, um missionário Alemão que- não só os ajuda financiando a compra de material para poderem trabalhai- mas corno também está sempre presente na construção da dignidade dessas pessoas, as quais faiam dele como muito amor e carinho. Sendo esta a única ajuda que elas recebem. O curioso é que vamos encontrar neste locai pessoas que não moravam no Km 21, e isso tem se dado devido a um fato muito interessante que estará sendo abordado. As pessoas que realmente trabalhavam no lixão antes de ir para este centro, estão retornando para o local de onde foram. Isso porque como já citado anteriormente elas não estão recebendo as devidas ajudas por parte da prefeitura
O que fazer então? A única solução seria a de vender a "casa7" e retornai para o Km 21 onde ao menos podem garantir a sobrevivência procurando restos de alimentos.

Aos 10 nos de idade Francisca e seu irmão deixavam sua terra. Pernambuco, para vir morarem São Paulo, acompanhavam seus 7 primos e seus tios. Ela trazia na bagagem além de um par de sandálias novas, as quais ganhara de seu pai antes dele morrer, um sonho de vencer na vida, e retomar para sua terra natal, rica para depois ajudar a todos os que lá ficaram. Hoje aos 27 anos, sabe que este sonho de criança é uma fabula e nem acredita que um dia isso irá acontecer. Mãe de duas meninas e três meninos, ficou grávida com apenas onze anos de idade. Hoje ex-moradora do lixão é uma das poucas pessoas que conseguiu um trabalho no galpão de reciclagem.

Francisca deixou para iras parentes e amigos e aos seus 10 anos de idade, aqui tirando os filhos e uns poucos conhecidos que tem não se sente feliz. Não consegue se encaixar no estilo de vida que as pessoas levam, um dos motivos pelos quais foi parar o lixão. Ela aos 12 anos foi trabalhar na casa de uma família, mas não se adaptou devido as muitas exigências que a dona da casa fazia para ela. Não consegue entender o que há de tão importante em um shopping para uma pessoa ir passear. Para ela passeio é ir domingo de manhã a missa e a tarde visitar os parentes e amigos. Mas não consegue participar das missas, pois a linguagem não é a mesma usada peio seu pároco quando fez sua primeira eucaristia aos 8 anos de idade. Ela lamenta muito em ter deixado sua terra natal.

Mas não veio porque quis, foi unia necessidade, como citado anteriormente seu pai havia morrido e sua mãe morreu antes mesmo dela completar um ano de vida, tais motivos levou ela a morar com os tios e estes quando vieram para São Paulo também a trouxeram. "Como eu gostaria de voltar para a terra dos sonhos”, mas sonhar para que, pois, sei que isso nunca vai acontecer" diz ela com um ai de tristeza em ter que viver em um lugar onde não a aceitam, e nem mesmo ela se aceita aqui.

Assim como Francisca, é possível encontrar muitas outras pessoas que também sofrem com esta mudança de vida.

Seu Nego mesmo é um caso muito parecido- Aos 69 anos de idade com os cabelos grisalhos, e pés no chão, dá um sorriso quando começa a falar de sua vinda para "a terra dos sonhos" maneira com a qual descrevia. São Paulo antes de vir morar. "Ouvia falar de muita gente que veio para cá e teve a sorte de ficar rica" diz ele com um sorriso no rosto. Mas não foi esta a mesma sorte que ele 'encontrou. Depois de 17 anos morando na cidade dos contrastes seu Nego viu-se em uma situação difícil para garantir a sua sobrevivência e a de sua família. A
única saída foi a de buscar o silêncio no resto de comida que as pessoas consideravam impróprias para sua alimentação. Mas sente-se orgulhoso pois, foi com o trabalho no lixão que conseguiu comprar um barraco onde hoje mura com assim que Deus quer", ao expressar estas palavras seu "Nego esconde seu sorriso e faz cara de quem precisa voltar para o lixão e catar mais "mercadorias".

Mas se existem pessoas como ele que sentem-se conformadas com esta situação de vida também vamos encontrar pessoas não revoltadas, mas que questionam o do porque estão ali.

É o caso de dona Elisabete dos Santos da Silva de 54 anos que também trabalha no centro de Triagem, natural de Minas Gerais veio para São Paulo trabalhar na casa de ama família, onde permaneceu por 3 anos, depois foi morar com um homem que era envolvido em tráfico de drogas, dois anos depois ele foi assassinado deixando-a com três filhos para criar. Eia voltou a trabalhar numa casa de família em Alphaville e, porém, por pouco tempo pois não tinha com quem deixar os filhos. Com o dinheiro do seguro desemprego comprou um barraco próximo ao lixão, onde passou também a buscar alimentos para a sua sobrevivência e a dos filhos. Emocionada ela diz "comíamos os restos das pessoas, aquilo que ninguém queria, talvez o arroz que pudesse ser requentado, mas para a sorte minha e de meus filhos não foi. Hoje sente-se feliz em poder ir ao mercado e comprar um pacote de arroz para cozer da sua maneira. Mas parece que sua vida é marcada por furtes acontecimentos, faz três anos que seu filho mais velho foi morto por traficantes locais, e agora o de 14 anos foi preso roubando um supermercado que fica no mesmo bairro do centro de Triagem. Triste ela diz que pede a Deus para que não tire mais este filho, pois não saberia se iria aguentar, mais uma perda. Para o mundo ela daria uma mensagem "não nos julguem mal, somos carentes, não precisamos de crítica e sim de amigos".

Um dos líderes do centro de triagem é Elias Piles dos Santos 33 anos que desde o início toma frente os acontecimentos do local. Antes de ir para o Km 21 trabalhou em supermercados, e serviços gerais em uma empresa, mas aposta hoje toda sua vida na reciclagem de lixo. "Este é uni grande trabalho, o que nós fazemos é tirar o lixo das ruas impedindo com que ele chegue aos rios e polua o meio, nós fazemos do lixo uma solução". O lixo também é a opção de vida de Elias. "Eu optei em trabalhar com a reciclagem, as pessoas que estão aqui. São uma das causas que as levou a ter que se sujeitar a buscar a sobrevivência nos depósitos de lixo.

"Este é um grande trabalho- o que nós fazemos é tirar o lixo das ruas impedindo com que ele chegue aos rios e polua o meio, nós fazemos do lixo uma solução". O "lixo" também é a opção de vida de Elias. Optei em trabalhar com a reciclagem, as pessoas que estão aqui, são aquelas que um dia necessitaram viver em unia favela ou nas ruas, e hoje estão chamando a atenção da sociedade devido a divulgação feita por Jornalistas que já chegaram a ganhar até prêmios publicando estórias de pessoas que estão aqui". Os Jornalistas, segundo Elias, procuram o centro de Triagem para se aparecerem, o mesmo com os políticos que só apareceram lá durante a época das eleições. O centro de triagem chama a atenção. Segundo Elias é um trabalho bonito, que a sociedade gosta de ver, porque não é superficial.

A Assistente Social Maria Angélica Lopes Maciel está a sete meses trabalhando no centro. Foi convidada pela prefeitura para desenvolver um trabalho junto com estas pessoas. "Eu trabalho com o povo e não com a prefeitura" diz ela com muita determinação. "Algumas pessoas ainda voltem para o lixão seja para morar ou para buscar restos de alimentos, nós tentamos conscientiza-los de que aqui é melhor do que lá, mas muitos ainda insistem e estão retomando ao Km 21. Estamos tratando de seres humanos que sentem quando sua dignidade está em Jogo. Angélica lembra que, devido as condições de vida da qual estas pessoas são provenientes é muito delicada para ser trabalhada. "É difícil quando eles aceitam falar, mesmo que seja um pouco com as pessoas sobre suas vidas, vocês têm sorte porque não vivem aqui”.