quarta-feira, 27 de julho de 2016

DIREITOS HUMANOS, GOLPE E RESISTÊNCIA: MESA REDONDA NA ABHR

Hall do CFH, UFSC

O texto que segue não tem a intenção de manter coerência entre as frases. São anotações realizadas durante a apresentação da Mesa Redonda chamada Direitos Humanos, Golpe e Resistência: "diante da atual conjuntura política nacional, esta Mesa Redonda torna-se crucial estratégica se conseguir contribuir com o posicionamento da Área de Ciência(s) e História da(s) Religião(ões) diante do Golpe de Estado progressivo que depôs a Presidenta Dilma Rousseff e encerrou a era da Nova República. Estes três elementos: golpe, deposição e início de uma nova fase histórica baseada em velhos preceitos de direita são o cenário da análise e merecem debate. Entretanto, na ambiência da ABHR, uma Mesa com este tema deve e precisa debater os papeis das religiões e dos religiosos, tanto na vitória do golpe quanto na resistência a ele. Assim sendo, há que se compreender o contexto novo das religiões no Brasil diante de um governo eleito indiretamente; num simulacro de impeachment que chega ao poder em nome de Deus, cuja evocação é permanente pelas autoridades agora impostas ao país. O Presidente Outorgado dentre elas". O texto são  frases soltas, que se intercruzam na ideia de fazer pensar o momento perverso de um golpe que está em curso.


Participação de Alexandre Brasil Fonseca; Carlos André Cavalcanti; Jessie Jane Vieira de Sousa e Zwinglio Motta Dias.

Brasil, tradições de golpes. O Brasil historicamente viveu uma série de golpes. A ação do golpe é uma técnica política Além dos grandes golpes presenciamos também uma série de pequenos golpes. Diante disto, o que objetiva, historicamente, é a busca de um grupo econômico manter-se no controle político, direta ou indiretamente. As ações do golpe e de seus golpistas reflete entre os menos favorecidos. Em épocas de ditadura, a desigualdade social aumenta, e ela tem queda apenas na redemocratização. Somente ao longo do governo Dilma a desigualdade foi inferior aos dados anteriores a ditadura militar. Entretanto, no Brasil apenas 14% declara renda à Receita Federal. Um professor no Brasil tem 78% de sua renda tributada, enquanto que um capitalista aproximadamente, 30%. A destituição do governo Dilma é a destituição de um modo de redistribuição de renda. Há quem dizia, em 2010, que o ritmo do Índice Gini do governo PT, atingiríamos em 2020 a desigualdade social no país semelhante aos Estados Unidos, e em 2030 semelhante ao Canadá. Porém como a lógica Temer, quais serão as transformações? A Ditadura Militar deixou como herança, não só a desigualdade, mas também a ideia de aceitação armamentista. Ao olhar a realidade das favelas mais violentas a presença das armas e o contexto de desigualdade é algo gritante. Como aceitar tal herança? Uma sociedade desigual, violenta e intolerante. Os grupos afros são os que mais sofrem com a intolerância religiosa. Preto e pobre. Mais um aspecto que está alinhavado com as heranças deixadas. Dados do RIVIR, n. 194 mostram que na Internet e na escola, juntos, aconteceram 17% dos casos levantados pelo estudo. A intolerância está ligada a outras questões, não apenas com as questões de religião em si. Um detalhe, a Revista Veja, raramente apresenta dados acerca da intolerância religiosa no Brasil. São raros os momentos que apresentam. A ideia de um estado laico não está centrada apenas da religião. Ela é vinculada a uma lógica social da igualdade. O que faz grupos conservadores gritarem é usar a lógica do capital, da desigualdade para fortalecer uma lógica financeira.

A diversidade religiosa é um valor social. As ações de grupos conservadores não podem ser aceitas. O que grupos deste tipo, da extrema direita fazem é instrumentalizar a religião e o simbólico para fins de controle de massa. O que a bancada evangélica está fazendo é o direcionamento de uma ação golpista que se utiliza de maneira equivocada o nome de Deus para fins e interesses. Apesar da desconstrução promovida pelo governo PT e sua crise interna, o Brasil vivenciou uma série de conquistas sociais. O que o atual governo golpista pretende é a criminalização da liberdade de expressão através da votação do projeto ESCOLA SEM PARTIDO. Além de resistir a tal perplexidade proposta por ações deste tipo se faz urgente voltar a estudar o que de fato é um golpe. A crise brasileira é uma crise orquestrada, estabelecida como um planejamento estratégico. O herói moralizador espera com um toque na panela acabar com a corrupção, mas não o faz pelo debate, mas o faz pela imposição da ideia, como se não houvesse a necessidade da política, mas na imposição de ideias, no silenciamento de outras e do conhecimento, o controle da universidade pública, a restrição do FIES, o praticamente fim da ciências sem fronteiras são exemplos reais e atuais. Como se a corrupção fosse o fator de desiquilíbrio total.  Com a panela todo o errado permanece concertado. Os problemas econômicos no Brasil não têm o tamanho dado pela mídia, como se a corrupção para ser combatida com a retirada de alguns nomes e único partido. As massas palenizadas não conseguem se politizar, ausência de moralidade política. É um momento de derrota política menor que outras, pelo menos, por ora. O deflagrador da crise são os processos judiciais que estão no alvo, entretanto, as vítimas da crise não conseguem manter uma relação com o deflagrador e os organizadores golpistas apoiam-se na mídia. O golpe tem sequência. Golpe é técnica, um instrumento utilizado na política. O atual não foi denunciado e percebido. Não há democracia de natureza, mas sim, o autoritarismo aristocrático que se intercruza em todas as esferas do poder. A ação do golpe não para na esfera governamental, mas o projeto da ESCOLA AMORDAÇADA é institucionalizar a censura e o golpe contra a liberdade de expressão. Que Brasil é este onde o neoliberalismo prevê que nossos filhos não tenham a aposentadoria que sonhamos, que jamais usem um sistema de saúde público.

É possível construir uma democracia radical num país de capitalismo periférico? Só é possível direitos humanos no estudo de democracia radical, falar em direitos humanos e de igualdade como prevê a Constituição de 1988 é recuperar problemas, coisas que a grande maquinaria não aceita. Rever a desigualdade é transitar em corda bambas. 12 anos de governo popular é um tempo muito pequeno diante do tamanho da história do Brasil. Além dos fatos, quais são os atores internacionais que agem ao ponto de impedir que o país saia deste eterno recomeço. O país do capitalismo impede que sejam feitas leituras de atores de décadas passada. A lógica de produção do conhecimento está associada a lógica do consumo do conhecimento. A desconstrução da figura da Dilma é também a desconstrução da figura da mulher. A crise da esquerda faz surgir personagens perigosos como Bolsonaro, por exemplo. Há poucos trabalhos sobre a instrumentalização do pensamento de direita no Brasil. Figuras deste tipo, como Bolsonaro, trazem consigo o pensamento hegemônico histórico das elites. A democracia que temos é incompleta, vide a judicialização da política, maculada pela ditadura militar e o fortalecimento das corporações.

O governo do PT permitiu que a gentalha chegasse perto da Classe Médio. "Eu médio, mediano (medíocre) não me identifico mais quando estou envolto de gentalha!"

O memento atual é assustador. Porém, pensar alguns movimentos históricos permitem um olhar de esperança. A Europa experimentou um desastre civilizador nas quatro primeiras décadas do século XX para, depois, despertar questões de ordem mais humanas. Mas qual é preço que estamos dispostos a pagar para haver esperança?