sexta-feira, 24 de junho de 2016

O VERDADEIRO AMOR NÃO É DEVIR

O verdadeiro amor – noção estranha, singular, capital é claro na filosofia platônica, mas de uma maneira geral na ética grega – o que é?

Pois bem, no verdadeiro amor, encontramos precisamente os valores de que eu lhes falava há pouco. O verdadeiro amor, primeiro, é aquele que não dissimula, e não dissimula em dois sentidos. Primeiro, porque não tem nada a dissimular. Ele não procura a sombra. Ele aceita. E também um amor que não dissimula seus fins. O verdadeiro amor não procura obter de quem ama algo que esconderia aos olhos do outro, mas seria seu verdadeiro objetivo. Ele não tem artimanhas, não tem rodeios com seu parceiro. Ele não se dissimula aos olhos das testemunhas, nem tampouco aos olhos de seu parceiro. O verdadeiro amor é um amor sem dissimulação. Segundo, o verdadeiro amor é um amor sem mistura, isto é, sem mistura de prazer e desprazer. É também um amor em que não se misturam o prazer sensual e a amizade das almas. E portanto, nessa medida, um amor puro j á que sem mistura. Terceiro, o amor verdadeiro (alethès éros) é um amor conforme ao que é reto, ao que é justo. E um amor direto (euthús). Ele não tem nada de contrário à regra ou ao costume. E, enfim, o verdadeiro amor é um amor que nunca é submetido à mudança ou ao devir. E um amor incorruptível que permanece sempre o mesmo.

FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 194