sexta-feira, 10 de junho de 2016

A NÃO-VERDADE NA DEMOCRACIA

Em outras palavras, para que a cidade possa existir, para que possa ser salva, ela precisa de verdade. Mas a verdade não pode ser dita num campo político definido pela indiferença entre os sujeitos falantes. A verdade não pode ser dita num campo político marcado e organizado em torno de uma escansão que é a escansão entre os mais numerosos e os menos numerosos, que é também a escansão ética entre os que são bons e os que são maus, entre os melhores e os piores. E por isso que o dizer-a-verdade não pode ter seu lugar no jogo democrático, na medida em que a democracia não pode reconhecer e não pode abrir espaço para a divisão ética a partir da qual, e a partir da qual somente, o dizer-a-verdade é possível. Portanto, não bastaria dizer que a liberdade de palavra dada a todos corre o risco de misturar o verdadeiro e o falso, de favorecer os lisonjeadores e de expor a perigos pessoais os que falam. Tudo isso é verdade, mas tudo isso não passa do efeito de unia impossibilidade muito mais fundamental, muito mais estrutural. É preciso compreender que, [nesse] tipo de análise evocado através desse texto paradoxal, a própria forma da democracia, ao submeter o melhor ao pior, revertendo a ordem dos valores, instaurando essa desordem e mantendo seu contrassenso, não pode abrir espaço para o dizer-a-verdade. Ela só pode eliminá-lo não o escutando quando ele se formula ou suprimindo-o fisicamente pela morte.

FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014, p. 41

Este fragmento de Foucault poderia ser lido na abertura de qualquer sessão e reunião no parlamento. Quando ouço discurso de bancadas como a evangélica, a ruralista, da bola, dos partidos, quando o interesse não é da nação, mas sim do grupinho, do partidinho, da panelinha me casa asco em ouvir tamanha aberração na boca daqueles que foram eleitos... qual é o limite da serventia de uma democracia? Com certeza não é esta que vemos.