domingo, 24 de abril de 2016

APONTAMENTOS SOBRE EDUCAÇÃO A PARTIR DE UMA RÁPIDA LEITURA DE NORBERT ELIAS

“Nenhuma sociedade pode sobreviver sem canalizar as pulsões, emoções dos indivíduos, sem um controle muito específico do seu comportamento” (ELIAS, 2011a, p. 270)

O que apresentarei nas próximas linhas é uma breve reflexão da ideia de educação e escolaridade a partir da leitura do texto O processo civilizador de Nobert Elias. O texto foi escrito para uma roda de conversa entre amigos preocupados com educação, sem pretensão acadêmica, nem de aprofundar as entrelinhas de Elias, apenas ler, conhecer, debater e divagar entre linhas de fugas e capturas.

O Autor não trabalha com o conceito em si, mas o apresenta dentro de um contexto específico, a educação como parte integrante do processo de construção da civilização ocidental. O faz a partir de uma análise da construção civilizatório. Em vários momentos evidencia a diferença de classes dentro deste processo. Porém, é preciso de antemão ter claro que existe, a partir do autor, uma distinção clara e evidente entre os dois conceitos. Como o texto propõe-se a uma rápida leitura, opto por apenas apresentar linhas gerais.

Para Elias (2011) não existe uma atitude natural do homem. Para dar conta da ‘elevação’ da atitude natural é preciso que o ser humano passe por um processo de educação, não necessariamente escolarização. A educação garantirá determinadas transformações e estas “transformações sociais gerais não são planejadas” (cf. ELIAS, 2011, p. 194), elas acontecem a partir de um fluir histórico[i]. Os conceitos em torno da vida civilizada são [estão] construídas no tempo histórico e sofrem a ação do tempo, de maneira lenta e gradual. Ao observar o campo da linguística o autor sugere que as transformações levam os termos [conceitos] a morte. Os termos que envolvem a civilização morrem aos poucos, quando as funções e a experiência na vida concreta da sociedade deixam de se vincular a eles. Então, pensar a educação, é pensar uma vinculação da sociedade a possibilidade a fim de garantir uma possibilidade de atitude do homem em sociedade dentro de um tempo específico.

É papel do estado garantir certas possibilidades de ordem para o ser humano civilizado. O Estado de Direito é uma marca do processo civilizador. Elias (2011) defende uma ideia semelhante a de Weber (2008) ao afirmar que cabe ao Estado o monopólio da violência[ii] exercendo uma dominação sobre os que compões o Estado, garantido a todos os partícipes ou cidadãos num conceito mais cruel, a ideia de direitos, enquanto uma instituição de garantias. A partir de um olhar deleuzeano é possível afirmar que há uma territorialização do Estado a partir do controle da violência, como subsequência uma cartografia de direitos. O controle do Estado torna legítima ou ilegítima as ações de outrem diante das normas. 

Quanto a educação, Norbert Elias (2011), a enxergar como uma possibilidade de fazer o homem refinar-se. É a através dela, da educação, que são estabelecidos padrões sociais aceitáveis que desenham normas comportamentais, que por sua vez que garantem a transcendência o estado natural para o estado de civilização. Com a instituição de padrões sociais aceitáveis, o processo civilizatório, via educação, direciona o humano ao desenvolvimento do autocontrole; da normatização como margeamento da vida e por fim, a instituição de um comportamento uniforme, que permita refletir ações moralmente aceitáveis e outras moralmente condenadas.

Ao mencionar o caráter de moralidade, a partir de um comportamento uniforme, há por consequência um cuidado do pudor. As relações intimas, no homem educado, são levadas para o interior da casa. Há um enclausuramento da vida íntima. O recanto com o corpo e a exploração do desejo não fazem parte da vida pública, enquanto locus social, mas está renegada ao espaço privado[iii]. O cuidado do pudor é marca forte da educação[iv].
A educação é uma função decorrente do processo civilizatório, parte inerente da maquinaria e dentro dela desenvolve-se a escola. A escola tem como objetivo, para Elias (2011a) completar o trabalho de inculcação do processo civilizatório e refrear possíveis tendências “amorais”. A escola é parte da maquinaria e funciona como um locus de adestramento coletivo gestando o autocontrole, necessário para garantir um agir uniforme e normativo.

REFERÊNCIAS

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Volume 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.
______. O processo civilizador. Volume 2. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011a.
TONUCCI, Francesco (Frato). La maquinaria escolar. Madrid: Centro de Documentación Crítica, 2008.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2008.

ANEXO

Sinopse do filme “Perfume – a história de um assassino”: Paris, 1738. Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw) nasceu em um mercado de peixe, onde sua mãe (Birgit Minichmayr) trabalhava como vendedora. Ela o tinha abandonado, mas o choro de Jean-Baptiste faz com que seja descoberto pelos presentes na feira. Isto também faz com que sua mãe seja presa e condenada à morte. Entregue aos cuidados da Madame Gaillard (Sian Thomas), que explora crianças órfãs, Jean-Baptiste cresce e logo descobre que possui um dom incomum: ele é capaz de diferenciar os mais diversos odores à sua volta. Intrigado, Jean-Baptiste logo demonstra vontade de conhecer todos os odores existentes, conseguindo diferenciá-los mesmo que estejam longe do local em que está. Já adulto, ele torna-se aprendiz na perfumaria de Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), que passa por um período de pouca clientela. Logo Jean-Baptiste supera Baldini e, criando novos perfumes, revitaliza a perfumaria. Jean-Baptiste cada vez mais se interessa em manter o odor de forma permanente, o que faz com que busque meios que possibilitem que seu sonho se torne realidade. Só que, em suas experiências, ele passa a tentar capturar o odor dos próprios seres humanos.
Lançamento: 26 de janeiro de 2007 (2h27min)
Dirigido por Tom Tykwer
Com Ben Whishaw, Dustin Hoffman e Alan Rickman.
Gênero: Drama, Suspense.
Nacionalidade: França, Espanha, Alemanha.



[i] No longa metragem “Perfume – a história de um assassino” fica evidente, a partir de uma análise de classe, que o processo civilizatório nasce a partir da degradação do ser humano. E no final, todo este processo é contestado quando a racionalidade é subvertida pelo desejo. Quando a intimidade passa para o espaço público com a despudorização do sexo o civilizatório desaparece. Para voltar a organização moral é preciso restabelecer princípios que novamente nortearão o autocontrole e ação uniforme.
[ii] Ainda fazendo referência ao filme “Perfume”, há uma cena onde o vilarejo entra em caos por conta da caçada de um serial-killer desconhecido. O monopólio da violência é perdido pelo Estado e todo conjunto de normas e regras que estão presentes naquela territorialidade é desconfigurado.
[iii] No longa o perfume da inocência é construído com parte de uma prostituta.
[iv] Será o funk um novo estágio do cuidado do pudor? Ele um movimento, para além da filosofia (com letra minúscula) do ‘tá tranquilo, tá favorável’ aonde o pudor é novamente transitado do espaço privado para uma exposição pública? A intimidade coisificada no corpo como reduto do desejo sexual?