sábado, 26 de março de 2016

AOS INSTATÂNEOS DOUTORES EM POLÍTICA NAS REDES SOCIAIS

Revista Espaço Acadêmico política 24/03/2016
Por WELLINGTON FONTES MENEZES*

Aproveito a oportunidade para parabenizar a todos que conseguiram se formar em doutores em ciências políticas e sociais somente assistindo a TV Globo ou reacionarismo do Grupo Bandeirantes, mimetizando pífias leituras de jornais como o Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo ou o tablóide sensacionalista da Revista Veja, ouvindo rádios assumidamente de direita como a Jovem Pan de São Paulo, reproduzindo alguns cacarecos das redes sociais e desorientados vídeos anônimos de fontes questionáveis do Youtube.

O grande acervo que incita a política do ódio por meio da desinformação generalizada provém dos grandes grupos controladores das informações noticiosas do país. É impossível falar em democracia plena de qualquer nação sob o manto nefasto do monopólio da informação por parte de um pequeno e poderoso grupo de controle de afetos informativos.

Fico com uma baita inveja, pois é tão cansativo e longo o processo de formação da graduação ao doutorado. Espero que em breve obtenha o meu título do doutorado, mas nunca da forma tão fantástica, instantânea e fanatizada daqueles que analisam política nacional sem ao menos ter um único livro digno de História do Brasil. Sim, assumo minha incompetência por não conseguir obter tal “nível de cosmovisão” de forma tão imediata!
Sim, cada um tem sua opinião, mas ofender os demais que são contrários a esta opinião além de ser deselegante é insensato e pouco agrega para a civilidade. Não estou subestimando a inteligência de nenhum dos “doutores”, mas fazendo um apelo à consciência. A soberba e a arrogância dos ignorantes teleguiados por uma rede midiática de noticiais sensacionalistas, insuficientes e deturpadas.

É sintomático que aqueles que nada sabem e que odeia política são justamente os que mais buscam se impor de forma intolerante no atual cenário de caos político cujo epicentro se instalou em Brasília. Logo, irrigados de informações subjetivas, depois vão mimetizar a versão que a grande mídia impõe, constituindo-se assim, a marca daqueles que nada sabem e buscam através de ofensas construírem uma argumentação que ora se torna risível, ora se torna patética. Como sempre escrevo, a política não é um pedante enredo de novela da Globo. Como diria um velho bordão de comercial de televisão: parece, mas não é. Ela estabelece um longo vínculo de problematizações e conjecturas que não são triviais a qualquer leitura enviesada do Jornal Nacional entre uma garfada do jantar e um olhar na telinha.

Parafraseando o escritor italiano Umberto Eco, falecido recentemente, as redes sociais se transformaram na seara dos imbecis. Na hipótese que tenha ele tenha sido um tanto duro, mas o que estamos atônicos assistindo é um festival de grosserias sem nexo, sem propósito, sem lastros, onde apenas o ódio é lançado como se fosse análise torrencial da política. O típico cidadão comum como adora ser dizer aos quatro ventos, o “cidadão de bem”, virou uma metralhadora ambulante nas redes sociais alimentada de estupidez e a intolerância. Pior que isto, será transpor a gritante irracionalidade das redes sociais para o cotidiano social, despejando agressões toscas por alguém ser contrário ou a favor de algum fato ou portando uma dada vestimenta de uma determinada cor. Não podemos entrar na paranóia do legado medieval do Tribunal do Santo Ofício onde o suspeito é automaticamente culpado!

Vale ressaltar que, no horizonte da vida cotidiana, podemos gostar ou não de política, mas acima de tudo, devemos manter a sobriedade, tolerância e cordialidade entre os pensamentos dos outros. Ser adversário é diferente de ser inimigo! O primeiro é o confronte de idéias e o segundo é um rito de guerra. Não podemos partir para uma infantilizada guerra tribal a qual sequer os seus participantes sabem exatamente por que estão gritando uns contra os outros.

Espernear-se por algo que se desconhece por completo porque alguém disse que é feio, chato e bobo? Vamos com calma que o andor é de barro, já diria um velho ditado. Ao contrário que a grande mídia expele a todo o momento a fim de gerar um clima de histeria coletiva, a política é muito mais complexa do que a simplificação grotesca deseja desenhar com um único propósito: enganar deliberadamente as pessoas as quais tem pouco ou contato com a política propriamente dita.

É preciso entender que se um país adentrar uma crise de esfacelamento das instituições ditas como democráticas, é sintomático que todos juntos irão pastar sem direito a alfafa. Todos os mais pobres e desprotegidos, pois aqueles que provocaram tal crise, os ricos, com a nau a deriva, pegarão seus passaportes e darão o fora estourando champanhe e degustando caviar. Xingar, gritar entrar em clima de convulsão histérica contra esta ou aquela figura pública, por sinal, sempre o sujeito da vez o qual a mídia quer que seja linchado moralmente, apenas mostra que o nível da intelectualidade política não é das mais requintadas. Pelo contrário, é apavorante!

Criticar sim, mas também procurar ouvir outras versões, entender que não é possível que de repente, como num passe de mágica, todos ficaram de birrinha e querem que o país se exploda em aventuras que a História mostra que são sempre trágicas. Viver é, acima de tudo, conviver! Sabemos que o convívio mútuo é uma arte das mais hercúleas e refinadas. Ressalto que somente e, tão somente, ofender políticos com orgulho no coração não é debater política, mas justamente o contrário, é mostrar claramente que quem faz tal atitude não entende absolutamente nada dos meandros políticos. Sim, você pode xingar quem desejar, mas lembre-se que o ódio é uma doença de fácil contágio e, uma vez acometido desta gravíssima patologia, será também de difícil cura.

Sem ideias mais sólidas, xingar por xingar cai na banalidade a qual não se sustenta sequer a um vento provocado por asas de um mero pernilongo. A propósito, conversas de botequim são bacanas e legais, mas não significa também que entre uma cerveja e outra, o sujeito fica mais consciente em falar sobre os rumos do mundo da política. Falar coisas que normalmente ele diz somente quando não tem mais nada de útil para se comentado e, a partir daí, improvisa-se alguma linha de raciocínio de puro devaneio. Tudo isto é normal dentro do ambiente privado, familiar, informal das pessoas, mas tratar esta banalidade como “assunto sério” e, ainda, criar um clima de histeria a respeito jorrando ódio por todos os poros, inclusive com viés intolerante em praça pública, é sintomaticamente neurótico.
Retomando o que foi dito anteriormente, apenas reafirmo que não é fácil chegar ao doutorado. Não quer dizer que a pessoa é mais ou menos inteligente se não tiver algum título acadêmico.  Todavia ao menos pressupõe que ela tenha um pouco mais de leitura e amadurecimento sobre algum dado assunto em particular. Também não significa o entronamento de ninguém, uma vez que a política é a arte da sua prática, assim como tem muitos professores, sindicalista, militante de movimentos sociais e pessoas de uma simplicidade maravilhosa são muito mais astutas sobre a prática política (o “saber fazer”) sem ter um burocrático título do que qualquer “laureado diplomado”. Política e práxis são elementos que quando trabalhados concomitantemente é de grande serventia ao seu praticante.
A questão central é que a política é para além (muito além!) de uma partida de futebol. Neste quesito, no futebol, o campeonato acaba e o único vencedor comemora e os restantes se lamentam até a abertura da sua próxima edição. Na vida prática, a política é diária e vencedores e perdedores são os elos que se constrói o mundo capitalista os quais nos inseriram a contragosto (Alguém pediu para nascer?).

Todavia, fico feliz que muitos acreditam firmemente serem “doutores” em sociologia política simplesmente num passe de mágica. É num plim-plim que, por osmose, transfere-se “saber político” ao passivo e ignorante espectador. Pronto, logo, em três minutos o sujeito sabe tudo de um dado assunto político irrigado pela leitura da tela e, poderíamos chama-lo de “cientista político miojo”, em referência à rápida peculiaridade de preparação de um dado tipo de macarrão. Doravante, diante da desertificação da cultura, é prudente o destilar de menos ódio gratuito e mais ouvido atento com apego à razão. A vida não deve ser um campo de guerra de todos contra todos sem compreender para que lado se atire. O clima da desinformação semente serve aos interesses daqueles que querem se aproveitar justamente da sacripanta ignorância alheia. O tempo certamente provará quem tem razão, se é arrogância dos ignorantes ou a farsa das tragédias anunciada.

Mais uma vez, pede-se que se ande com muita calma com o andor é de puro barro. A solidariedade é o motor que é distingue os seres humanos e os objetos inanimados. Não precisamos de um diploma para ter conhecimento de mundo, mas precisamos de senso crítico e amor (esse afeto mais caro e árduo de ser operar). Logo, que possamos (re)construir como seres humanos responsáveis, a vida em conjunto com outros seres igualmente humanos. Discordâncias sim, agressividades jamais! Vale a reflexão a qual a solidariedade é sempre maior e mais construtiva do que qualquer desagregadora estupidez.

WELLINGTON FONTES MENEZES é Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Bacharel e Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Universitário e da Rede Pública do Estado de São Paulo. E-mail: wfmenezes@uol.com.br Blog: wfmenezes.blogspot.com.br

Publicação original <https://espacoacademico.wordpress.com/2016/03/24/aos-instantaneos-doutores-em-politica-das-redes-sociais/>