terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CRÍTICA A MINISSÉRIE 'A FÁBRICA' (THE MILL)


O Canal +Globosat, no início deste mês apresentou as duas temporadas da minissérie The Mill, traduzida no Brasil por “A Fábrica”. A série foi ao ar em 2013, na Inglaterra, numa produção do Channel 4 e retrata a história da fábrica Quarry Bank Mill inspirada por relatos reais da história de trabalho infantil da fábrica que hoje é um museu. A história se passa numa comunidade de próxima a Liverpool onde a fábrica é o ponto central e tudo gira em torno dela: da geração de empregos e o do comércio sustentando pelo movimento da fábrica.  Os personagens que dão o tom para a história são Esther Price (Kerrie Hayes), jovem rebelde de dezessete anos, filha de um casal que não tem condições de sustentá-la e anseia por reencontrar sua família e a verdadeira idade; Lucy (Katherine Rose Marley), colega de quarto de Esther, de quem se torna amiga; Susannah (Holly Lucas), jovem de vinte anos que está grávida e planeja sustentar sozinha seu bebê e Mirian (Sacha Parkinson), jovem de dezessete anos, irmã de Susannah. Além das crianças acrescenta a trama os personagens Samuel Greg (Donald Sumpter), um homem de setenta e poucos anos que mantém uma postura prática diante da vida e o fundador de Quarry Bank. Sua idade avançada o obriga a se afastar do trabalho, mas Samuel hesita em deixar o comando de Quarry Bank Mill para seu filho Robert (Jamie Draven). Embora seja ambicioso e inteligente, ele não tem o mesmo talento do pai para os negócios. Tentando mostrar seu valor, contrata Daniel Bate (Matthew McNulty), um mecânico de pavio curto e idealista, que sonha com uma sociedade onde os proletários possuem voz e vez. Embora a minissérie não cita Marx, é evidente os contornos marxistas nos diálogos pró-proletário de Daniel. E não o cita por uma questão óbvia, mas o ideário está lá presente o tempo inteiro.

Ao total são dez episódios divididos em duas temporadas, a primeira com quatro e a segunda com seis. São abordados, através da vivência da fábrica diversos temas. O trabalho infantil é o mote, mas junto com as crianças entra também a questão da aprendizagem, o preconceito moral contra os órfãos, a influência de uma religião que atende apenas as necessidades das elites – clara herança do anglicanismo moralizante de Henrique VIII; as discussões econômicas em torno da libertação dos escravos – jamais o aspecto humano; a luta pela implantação de leis trabalhistas e a criação dos sindicatos e associações de trabalhadores e na segunda temporada a todo este caldo acrescenta-se a crise migratória dos ingleses, que saem dos campos provocando o inchaço das cidades industriais. Do sul para o norte. Dentro deste universo social, o enunciado político contrasta com as relações humanas, casamentos, sexo adolescente, a privação da intimidade, as refeições, a institucionalização dos bares, a cerveja como refúgio, a diferença de classe como a impossibilidade de ascensão social ajuda a pintar o quadro. A obediência cega para com as elites e seus ideários. Ao esclarecido é dado o poder de decidir sobre os ignorantes.

Recomendo a série pela possibilidade de reflexão que ela gera. É possível pensar a educação e a educação profissional, por consequência, como também as condições trabalhistas e como a Revolução Industrial gerou e construir a sociedade hodierna. Onde vamos chegar com tudo isso? Quando encontro pensadores que afirmam que ainda não superamos os estágios da modernidade, dou razão diante do enquadramento que a série oferece. Alguns costumes são alterados, mas a essência de uma ação fomentada apenas pelo lucro e a motivação consumista nascem no tempo da Quarry Bank Mill e ainda estão por aqui. Entretanto, há os que defendem a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle, e o que a fábrica  evidencia é a sociedade da disciplinar ganhando corpo; e o que faz o controle nos fica como proposta de provocação. 

Não é uma série para relaxar, ela incomoda, causa náuseas em diversos momentos, faz o espectador preocupado retorcer-se na cadeira. As cores mais carregadas, a ausência da alegria e o constante embate entre ricos e miseráveis evidenciam o as maravilhas que o capitalismo escondem nos porões da história.

Diante de Quarry Bank Mill não há como pensar que o trabalho é bom e que ele dignifica o homem. Pensar assim é dar corda e razão a uma forma sufocante que as relações de trabalho estão construídas e que geram disciplina num primeiro momento, e controle no momento seguinte.