terça-feira, 12 de janeiro de 2016

TEMPO DE CAVALOS BÊBADOS

Aviso: esta postagem contém revelações sobre o enredo.

Tempos de paradoxos.
A tarde estava a ler um texto de Dilton Ribeiro do Couto Jr, chamado Cibercultura, juventude e alteridade. O texto trabalha autores de leitura, como Lévy e Recuero. Uma discussão muito interessante dada a partir das possibilidades do ciberespaço. Uma apresentação contemporânea construída a partir da realidade e dos nodos das conexões.

No fim da tarde, para relaxar, degustei um bom filme. Optei pelo trailer alternativo Tempo de cavalos bêbados. Havia ele em DVR, desde a exibição do mesmo pelo Ciclo Iraniano de Cinema, apresentado em setembro de 2015, pela TV Brasil. Uma película de 2000, premiada no Festival de Cannes, denuncia as precárias condições humanas de uma vila curda na fronteira norte entre Irã e Iraque. Primeiro filme do diretor curdo-iraniano Bahman Ghobadi, que foi gravado em idioma curdo. Miséria, falta de oportunidades, uma vida para além de qualquer possibilidade. O filme é contato a partir da perspectiva de Amenah, irmã de Ayoub que toma para si a tarefa de cuidar da família após perder os pais, a mãe morta em trabalho de parto e o pai vitimado, junto de sua mula, por uma mina. A principal fonte de renda dos aldeões é a vida da contrabando, trazendo produtos para ambos os lados da fronteira.

Uma história triste e chocante. Ótima fotografia e sequência. Tem um final abrupto que deixa o espectador um tanto desnorteado. Mas é evidente que não segue uma lógica americana, então, diante do universo que contextualiza, perfeitamente aceitável. O título traduzido em português é muito interessante, e ao descobri-lo ao longo da história é interessante demais, mas por qual motivo cavalos se as cenas são com mulas?.

O filme é forte na medida que as ações e costumes estão tratados. Um aleijado emocionalmente instável, uma negociação de casamento, crianças que trabalham e são transportadas em caminhões, o excesso com animais. O politicamente correto passa longe desta tela. Crianças em trabalho, expondo-se a todos os perigos. Aqui entra o paradoxo. Enquanto minha leitura conduzia-me pelas conexões do ciberespaço, deparamo-nos com uma realidade curda, que pouco modificou-se nos últimos vinte anos, que se limitam a uma vida entre montanhas lutando para sobreviver num mundo onde dignidade não é uma opção. Se por um lado há um espaço de tecnologias digitais, noutro há um medievalismo oriental que tenta sobreviver junto as crises da modernidade.

O filme é tenso, mas o final abrupto pode ser uma ponta de esperança, embora incerto, a mesma esperança que o povo curdo possui, de construir as próprias fronteiras.