segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

PROBLEMAS NO ENSINO DE FILOSOFIA

Texto do prof. Rodrigo Cesar Abrantes

A grande maioria dos professores de filosofia da educação básica , tanto no Vale do Itajaí quanto em boa parte do país , são ex-seminaristas ou seminaristas atrelados ao cristianismo e, especificamente, à religião católica. Tal fato não é um problema, por si só, até porque grandes filósofos iniciaram seus estudos em tal contexto. No entanto, quando um grupo significativo de professores se utilizam do espaço que têm enquanto docentes para reproduzir uma formação que necessariamente atrela a filosofia à religião ( o catolicismo no caso), uma distorção da filosofia, ou ao menos do que é tido como temas próprios à filosofia nesse nível de ensino, se mostra evidente. Fora a formação filosófica, por vezes, superficial, que frequentemente é tratada como uma mera preparação para estudos posteriores em teologia, procedimento necessário para tornar-se um clérigo, é comum encontrar, além de referências religiosas nos discursos dos professores, uma aproximação claramente equivocada da filosofia a uma literatura de autoajuda.

O ensino de filosofia na educação básica, de modo geral, tem uma série de problemas e questões que merecem ser pensadas com cuidado. Aspectos práticos como a carga horária e a delimitação dos temas pertinentes , ou mesmo possíveis maneiras de trabalhar a disciplina em sala de aula são questões centrais para reflexões. No entanto, a condição de um número significativo de professores que antes de iniciarem seus estudos em filosofia tiveram uma motivação estritamente religiosa e que , ao buscarem, receberam uma formação fundamentada em uma religião específica , se mostra uma questão a ser ponderada enquanto um possível problema do ensino de filosofia na educação básica, sobretudo no ensino médio. Embora esteja atrelada a diversas concepções religiosas e conceitos metafísicos, a filosofia, no decorrer da história, se mostrou, claramente, uma atividade humana distinta da religião.

Já no que diz respeito à aproximação da filosofia à literatura de autoajuda e a temas ( e principalmente abordagens) que, além de simplificar e reduzir, parecem solucionar questões existenciais, não restam dúvidas que tais práticas devem ser abolidas das salas de aula, uma vez que além de distorcer a natureza da atividade filosófica, pressupõem visões acerca da realidade fundamentadas em lugares comuns, maniqueísmos e sugerem posições sociais ideais a serem ocupadas.
A filosofia, que tem o pensamento enquanto matéria prima, portanto, algo comum a todos é, em sua essência, uma atividade simples e acessível a quem quiser desenvolvê-la, desde que se dedique a ela com seriedade . No entanto as especificidades ( mesmo sujeitas a constantes mudanças) do pensamento filosófico não devem ser negligenciadas por quem é responsável, ao menos, em termos atuais, formal e legalmente, pelo ensino propedêutico de uma área do conhecimento que está, assim como outras, inserida em um contexto educacional e social laico.