segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

EMPREENDEDORISMO NA SALA DE AULA: A VELHA TOUPEIRA MONETÁRIA

Há um projeto de lei no Senado que visa incluir nos currículos do ensino médio e dos anos finais do ensino fundamental o conteúdo de empreendedorismo. O objetivo do senador José Agripino (DEM-RN), autor do projeto, é tratar o empreendedorismo não como uma nova disciplina, mas como tema transversal. Segundo democrata “os reflexos sociais e econômicos desse paradigma são danosos, uma vez que ele tolhe aquilo que o brasileiro tem de melhor: a espontaneidade, a irreverência e a capacidade de criar”. Para ele “a educação para o empreendedorismo não tem a pretensão de tornar todas as crianças empresários, mas criar uma mentalidade empreendedora para a vida, o que serviria também para o setor público, o mundo artístico e o voluntariado. Para ele, o empreendedorismo pode contribuir para os projetos de vida dos estudantes”.

O que dizer? Uso das sábias palavras de Deleuze*,

Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se "dividuais", divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou "bancos". É o dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro - que servia de medida padrão -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. A velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o é das sociedades de controle. Passamos de um animal a outro, da toupeira à serpente, no regime em que vivemos, mas também na nossa maneira de viver e nas nossas relações com outrem.

* DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum na sociedade de controle p. 219 – p. 226 in Conversações: 1972 – 1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.