sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

EM TEXTO VIEGAS QUESTIONA AS ATITUDES DO NOVO TP DE BLUMENAU

Texto de Viegas Fernandes da Costa (via Facebook)

No último final de semana estive em Blumenau, e tive a oportunidade de acompanhar in loco os efeitos da caducidade do contrato de concessão do serviço de transporte urbano na cidade. Não eram poucos os blumenauenses que percebiam que o Consórcio SIGA nunca foi, efetivamente, um consórcio, mas um grupo de três empresas que funcionava como uma espécie de cartel sob o beneplácito do poder público. Se efetivamente cartel ou não, infelizmente não sabemos, e parte da responsabilidade pela nossa ignorância recai sobre os vereadores da base do governo de Napoleão Bernardes, que rejeitaram a instauração de uma CPI para apurar o caso. De qualquer modo, a situação passou a ficar insustentável ante uma opinião pública cada vez mais insatisfeita com a qualidade dos serviços ofertados e com os altos preços cobrados dos clientes, usuários de um serviço público essencial. A organização dos trabalhadores do transporte público urbano, representados por um sindicato dotado de legitimidade e capacidade estratégica, tensionava ainda mais para um ponto de ruptura com um Consórcio que desde o princípio se mostrou incapaz de atuar com efetividade no complexo sistema de transporte urbano em Blumenau.

Ao ouvir Napoleão Bernardes declarar a caducidade do contrato com o Consórcio SIGA, no Sábado, algumas perguntas ficaram muito claras para mim, mas preferi ficar quieto. Afinal, não moro mais em Blumenau, como tantos vereadores e jornalistas da cidade sempre fizeram questão de me lembrar, e reconheço que a situação do transporte público urbano em Imbituba e Garopaba, municípios em que resido e trabalho, é tão ou até mais catastrófica do que a de Blumenau. De qualquer modo, durante toda a semana acompanhei a situação do transporte urbano blumenauense pela imprensa e devo confessar que senti vergonha alheia pelo baixo nível na qualidade das informações e na abordagem de um tema tão importante.

A imprensa de Blumenau, sem exceções, perdeu uma grande oportunidade de atuar como imprensa séria, problematizadora, investigativa e propositiva.
O que vi foi uma espécie de excitação coletiva. Os novos ônibus com seis anos de uso em média chegavam a ter apelo erótico. Eram filmados, fotografados, comentados. "Furos de reportagem" chegavam a anunciar os comboios que varavam a madrugada. Uma espécie de competição para determinar quem daria a maior informação inútil primeiro chegou a ser ensaiada. E dá-lhe lixo jornalístico, fofocagem e adulação do prefeito. Até expressões do tipo "atitude corajosa de Napoleão" foram paridas por jornalistas que se pretendiam sérios. Só faltou o chargista mor do puxa-saquismo blumenáusea pintar Napoleão com uma cueca azul sobre a calça e uma capa vermelha amarrada ao pescoço.

Mas as perguntas que o bom jornalismo deveria fazer não eram feitas. Por que não eram feitas?

Nesta sexta-feira, felizmente, a luz no fim do túnel! Em nota o Sidetranscol (o síndicato dos trabalhadores do trasporte urbano coletivo de Blumenau) enfim perguntou o que os jornalistas sérios deveriam ter perguntado desde o começo: Por que a prefeitura contratou a Piracicabana e não outra empresa? Quais os caminhos que levaram a Praça Victor Konder ao Grupo Constantino? Desde quando as tratativas vêm sendo feitas, e por quem? Por que Napoleão só decidiu pela caducidade do consórcio no início de 2016, coincidentemente ano de eleições municipais, quando o sistema já dava sinais do esgotamento há algum tempo? Por que o vereador Becker voltou atrás da sua assinatura no documento que pedia a instauração de uma CPI do transporte público da cidade? Quem era, afinal, o verdadeiro proprietário da Glória? Por que Rodovel e Verde Vale silenciaram durante todo o processo? Por que uma intervenção é suspensa, mesmo que constatados problemas administrativos graves e nenhuma alteração estrutural ser determinada às empresas? Por que a população (salvo alguns poucos que foram às ruas reivindicar transporte de qualidade) ficou em compasso de espera, encolhida, com os olhos brilhando ante os alvos comboios?

Independente da cor e do tamanho dos novos velhos ônibus que chegam na cidade, se dirigidos por motoristas que retornam a São Paulo em ônibus da Penha ou se dirigidos pela madrugada ou pelo alvorecer, nada disso é realmente significativo. O transporte público urbano de Blumenau continuará custando caro e deixando a desejar. Principalmente porque a cidade parece se satisfazer com toda a purpurina lançada para o alto; e dá-lhe transporte alternativo emergencial que não funciona, carona solidária em uma cidade famosa em todo país pelo individualismo dos seus cidadãos e ônibus que prometem agora wi-fi.

No fim da história, o que me preocupa mesmo é o depois. Depois que a Piracicabana se instalar, como se portará? Afinal, trata-se de uma empresa que visa lucro e não de uma entidade de caridade. Como ficará a mobilização dos trabalhadores com o fim do Consórcio SIGA? Alguém se beneficiou neste negócio todo?
Se resta um pouco de dignidade na imprensa blumenauseana, levem a sério as perguntas que o Sindetranscol fez nesta sexta-feira. Perguntas que a imprensa tinha a obrigação de fazer, mas preferiu não fazer.