segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE SE FAZ COM ÓCIO


O ócio é a mãe da filosofia (Thomas Hobbes)

Livros, discos ou qualquer objeto que possa ser interessante para minha biblioteca são ótimos presentes, gosto de recebe-los. Sexta-feira passada recebi um livro de presente de natal de uma pessoa muito especial e querida. Filosofia para apressadinhos, de Alain Stephen. A frase que destaquei acima tem relação direta com uma anotação que descartei na faxina de natal. Não nos damos mais direito ao ócio. Ouvi esta reflexão de um pensador australiano num colóquio deleuzeano em Campinas, em setembro passado. Já escrevi sobre ela neste espaço e quero retomar a ideia a partir de meu presente filosófico de natal. Hobbes acreditava piamente que somente através do ócio o ser humano poderia exercer o livre-arbítrio em prol do bem comum. É importante perceber que o livre-arbítrio possui um olhar para a coletividade que foi gerada a partir do contrato social. Não é um espaço para pura individualidade.

O que encontramos hodiernamente é a negação do ócio. Nos ocupamos o tempo inteiro. O transporte coletivo, que muitas vezes poderia ser o encontro de conversas inusitadas, transformou-se numa passarela de fones de ouvido. As telas de canais de televisão estão bombardeadas de informações a todo instante, um exemplo poluído é a tela do canal de notícias Bloomberg. O tempo de ócio foi transformado em espaço de criatividade. Tudo para ganhar dinheiro, mas onde fica a reflexão? A frase de Hobbes foi escrita após uma viagem à França, ao viver o ócio. É do ócio que nasce a reflexão e a produção intelectual.

Uma sacola cheia não comporta novos produtos. Para reutilizá-la é preciso esvazia-la. E pior que isto, é pensar, que usamos frases estúpidas como “mente vazia, oficina do diabo!”, deveria ser, “mente vazia, espaço para criatividade”.

Agora, com Hobbes e a necessidade do ócio podemos pensar a educação. Como é possível conceber professores que trabalham com jornadas de trabalho cheias? Como podem professores serem exemplos de intelectualidade se a eles não é dado o direito ao ócio? A rede pública estadual de Santa Catarina prevê míseros 20% de carga horária para “hora-atividade”. Como pode um professor tornar-se pesquisador e formador de conceitos com a ingrata carga horária? Ele não estará em produção, não viajará, não dialogará com outros profissionais e não discutirá sua situação enquanto for obrigado ao trabalho braçal de ensinar. Sem ócio também não há coletividade. O que um sistema que sobrecarrega de horários proporciona é o desmantelamento de classe que não consegue unir-se para lutar por direitos. Não se faz uma pátria educadora sem ócio, sem tempo para “pensar”. Não se produz pesquisa sem liberdade para assim fazê-la. E liberdade de produção não pode ser marcada por ponteiros de relógios, mas necessita de ócio.