domingo, 29 de novembro de 2015

EM EPÓCA DE INTOLERÂNCIA

Os últimos dias têm apresentando-se corridos demais para escrever uma reflexão para este espaço. Ontem, encontrei uma situação que me incomodou demais. Motivado por tal incômodo recorro as linhas deste blog para um desabafo ao vazio e a rede. Para escrever recorro a duas informações, primeiro, análises de jornalistas políticos em outubro passado, após as eleições para o legislativo federal e a obra A Condição Humana de Hannah Arendt. Em discursos em sala de aula, preocupa-me demais a crescente onda de discursos radicais, tanto dos que vem de linha esquerdista, quando da direita. A independer dos lados, os extremos, os inflamados são motivados pela irracionalidade e estes imbecis julgam-se detentor da verdade. E aqui mora o grande perigo a polaridade enrijecida incapaz de perceber que não vivenciamos apenas vias duplas, mas um espaço de inúmeras imbricações.
Os analistas ao perceber o resultado das urnas dos inúmeros bolsonaros e felicianos percebem que o nosso parlamento é composto por uma classe conservadora muito perigosa que pode ser dividida em duas categorias. A primeira categoria é aquela que usa de maneira equivocada a Bíblia para justificar suas maluquices. Interpretam as 'verdades' da fé do modo mais conveniente. Usam do púlpito como palanque político e dos discursos de orientação para doutrinação pseudo-política. E a maior imoralidade, usar de uma massa que está para um encontro com Deus para uma proposta do diabo. Prometem o céu, mas entregam o inverno através do lobby político em Brasília. Discursos inflamados de uma fé que destroem as conquistas dos direitos humanos, submetem a mulher a um plano inferior, reestruturam as leis e quem interferir na ciência e na educação, não me estranha encontrar um idiota no planalto criticando o darwnismo, e ao mesmo tempo usa do darwninismo social autointitulando-se escolhidos. Verdadeiros lobos em pelos de cordeiros. Felicianos que adotam uma posturam malafaiana gritam sem argumentos acusando os que propõem uma reflexão de hereges, usam da massa da fé para manobrar e semear o ódio e o pior é que estes incapacitados dominam comissões de ética, justiça e humanidade com ideias torpes e não estão a serviço do Brasil, mas sim as suas pequenas igrejas que propõem negócios. Urge o fim da bancada evangélica. Pior que ela, é a segunda categoria, os bolsonaros que usam da insatisfação para desenvolver um discurso de armamento livre, de defesa do tradicional, do ditatorial. Parece ser paradoxal, a democracia construindo monstros anti-democráticos, institucionalizando sua voz e revestindo de dirigentes tamanha burrice. São estes mesmos burros que usam do discurso da segurança para privar a liberdade das pessoas, e também da violência através do extermínio dos menos favorecidos e vitimados, como solução para os problemas sociais. Para estes, pobres são vistos como empecilhos, e quando a violência é o maior argumento, propor a morte é só um passo. A história já nos mostrou isto. Mas há quem elegeu e defendeu tais leviatãs que possuem a burrice maior, a cegueira da ignorância diante dos fatos, pois reproduzem o mesmo discurso, sem reflexão, sem pensar e provavelmente algum destes está lendo este texto e discordando de tudo.
A partir daqui que recorro a Hannah Arendt quando ela estuda Max Weber e olha para aquilo que o sociólogo chama de “asceticismo intramundano”. Pessoas que usam de discurso inflamado contra as minorias não conseguem olhar para a história das ideias, focam apenas uma cadeia de eventos. Estão revestidos de uma selvageria de colonizador que somente o capitalismo é capaz de produzir. Reproduzem discurso de “morte ao índio”; “morte ao MST”; “pau do veado”; “preso é tudo bandido”; “bicha boa é bicha morta”; “lugar da mulher é em casa” a partir de uma selvageria tratando o outro com empecilhos, da mesma forma como os colonizadores fizeram, reproduzem o evento e não pensam nas ideias. E todos os diferentes são vistos como impedimento para o desenvolvimento e para o sucesso financeiro que tais julgam ser de direito. O consumo do descartável é transportado para o nível do humano, tornando o excluído descartado. Mas qual condição nos faz estar no lado do não-excluído?
A alienação passa pelo campo da crueldade.
Imagem de Magritte, La Condición Humana.