quarta-feira, 27 de maio de 2015

ORAÇÃO DO PERDÃO

Depois de alguns dias falando e postando sobre televisão, quero no espaço de hoje compartilhar um texto que recebi do newslatter do Zenit.org, que fala da oração do Kyrie eleison. Ela é uma das orações mais antigas da liturgia cristã. Há expressões semelhantes em alguns salmos e nos Evangelhos. Os testemunhos de uso litúrgico remontam ao século IV, na igreja de Jerusalém, e ao século V na missa de rito romano. É usada como resposta a determinadas invocações. No rito tridentino, pronuncia-se após o ato penitencial e logo depois da antífona de entrada; no rito ambrosiano, é dita no ato penitencial e repetida três vezes no final da missa, antes da bênção final. O Kyrie, como é geralmente abreviado, também faz parte das missas cantadas, seguindo-se imediatamente ao introito. Depois da reforma litúrgica, foi traduzido no rito romano como "Senhor, tende piedade de nós" e "Cristo, tende piedade de nós".  A expressão grega Κύριε ἐλέησον, da qual "Kyrie eleison" é uma transliteração em latim, poderia ser traduzida como "Senhor, tende misericórdia" ou "tende benevolência". Alguns teólogos chegaram a propor "Senhor, amai-me com ternura". Essa invocação tripla, "Kyrie eleison - Christe eleison - Kyrie eleison", expressa um pedido claro de perdão, em resposta a uma fórmula da absolvição sacerdotal que normalmente encerra os atos penitenciais de rito romano. Também é verdade que esta fórmula, especialmente na tradução, tem um caráter penitencial que originalmente era secundário, como evidenciado pelo rico desenvolvimento musical do texto na tradição musical gregoriana.

Na missa tridentina, a invocação não se limita ao momento penitencial, assim como na liturgia bizantina. É difícil, por conseguinte, chegar a uma tradução totalmente satisfatória desta expressão, que deveria ser preservada tal como ainda é usada no rito ambrosiano. Quanto ao significado, é muito bonito entendê-la como uma invocação de bondade: "Senhor, mostrai-nos a vossa benevolência". A benevolência completa a misericórdia. É um termo menos usado, mas que poderia ser plenamente recuperado em todo o seu significado. A benevolência é o amor não focado no "eu", mas no próximo, no outro. Um fruto do amor do Espírito, que infunde na alma serenidade, tranquilidade e paz, envolvendo quem nos rodeia. Este amor nos faz olhar para os outros com olhos limpos e descobrir neles muitas coisas belas. É a atitude que nos torna "longânimes", que nos ajuda a ir além dos defeitos dos outros, confiantes de que o bem os supera se soubermos ser pacientes. "Benevolência" significa "bem querer" e é característica da pessoa amorosa, afável, gentil, generosa, que dá ao seu comportamento em relação aos outros um sentido de alegria, de suavidade e doçura que ganha o coração. A palavra "benevolência" expressa relação. Não é bom saber que há Alguém que nos quer bem? O Kyrie eleison se torna, assim, um pedido de perdão, mas também um pedido de amor. Jesus é gentil e paciente com todos. Mesmo numa dura controvérsia com seus inimigos, Ele diz: "Eu vos digo isso para que sejais salvos" (Jo 5,34). São palavras de paciência e longanimidade para com todos. Assim como o Pai, Ele é também é benévolo: e a salvação é a maior revelação da "benevolência divina".

A esta luz, podemos entender melhor quando Ele fala da "boa vontade" do Pai: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem sem esperar nada em troca e a vossa recompensa será grande e vos tornareis filhos do Altíssimo, porque Ele é benévolo até para com ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso" (Lc 6,35s). Viver esses imperativos é entrar em sintonia com a ação do Pai e de Jesus; é ser "benevolentes" com todos, porque só assim podemos "provar e saborear o quanto é amável e gentil nosso Senhor" (Salmo 33,9; 1 Pd 2,3). Pedro, citando este salmo, exprime a identidade do amor misericordioso de Deus agindo em Cristo ao referir a Cristo o nome de Deus (Senhor) que o salmo exalta como "benevolente".