quinta-feira, 21 de maio de 2015

A VIDA NUA: CONECTO, LOGO EXISTO


Texto original de Rebeca Yanke, publicado no jornal El Pais,
Madrid, 20 de dezembro de 2014

Tradução livre:

Vivemos num período rizomático, há entre nós uma prática que começa, conhecemos e já termina.  Ainda existe os que resistem em entrar no universo digital. Você já deve ter percebido que existe uma constante exposição na internet, especialmente nas redes sociais virtuais.  Num primeiro cenário, o extinto Fotolog, uma primeira rede social que causou furor no início do terceiro milênio, sobretudo na América Latina e que consistia em mostrar cada dia uma foto e um texto. O fotolog primava pelo anonimato, os usuários usavam pseudônimos e eram prudentes na hora de dar informações sobre si mesmos.

Justo o contrário acontece agora. Qualquer um tem sua pequena biografia no Twitter expõe muito de si, vejamos alguns exemplos:
(a) Apaixonado por um bom vinho e amigo dos meus amigos. Filha, mãe, irmã, gosto de pintar e viajar. Idealista, porém, prático. Escritor e poeta.
(b) Como a Vênus de Milo, desconstruída da direita, conhecida como a Dra. Glas.
(c) Lamentavelmente moderna. Feminista sem porém. Pro sexo. Bisseuxual. Feminino. Escrever para morrer depressa. Sou quente e festiva com a palavra verão.
Diante disto nos alerta o fundador do Facebook Marck Zuckerberg, em 2010: a privacidade é desejada como uma normal social.  

Quase cinco anos depois, a rede social Facebook acaba de lançar a função Privacy Basis, pensada em ajudar o usuário a proteger sua intimidade. A antropóloga argentina Paula Sibília analisou o fenômeno em seu livro La intimid como espectáculo em 2008 e sustenta agora que se trata de um conceito que “forma parte de um conjunto de novos hábitos que são sintomáticos de algo mais importante. Creio que está correndo uma transformação histórica em nossa sociedade ocidental e globalizada, quero dizer, mudanças nos modos de ser e de estar no mundo, transformações nas maneiras que construímos e que somos e nos recursos que utilizamos para este fim” argumenta.

A Dra. Glas (@DoctoraGlas), exibe-se nua através de seu blog e de seu Twitter e escreve textos chocantes. Seu primeiro livro sobre sua vida tem permitido ganhar confiança sobre si mesma. “Agora tenho menos medos em expressar abertamente minhas ideias e ensinar sobre meu corpo em público, imagine a censura, os insultos e as represálias. Recebo ataques cibernéticos e ameaças de morte e insultos como qualquer outra pessoa que tem provocado nas redes sociais e questiono as violências e descriminações da sociedade atual, porém, a exposição me parece positiva”, explica Dra. Glas. Em resumo, suas ações se encaixam com a descrição de Sibila quando aponta sobra a exposição: “aponta uma intimidade que, curiosamente, tem que exibir-se para poder realizar-se e ser, colocado que somente ganha legitimidade sobre os demais que observam, algo que parece contradizer a mesma definição de intimidade, que foi tão importante na era moderna”.

Porém, esta época tem pouco que ver com a atualidade, aonde “é importante que os outros vejam que somos e, sobretudo, que digam que gostam para confirmar que existo”. Se no século XIX a tendência era a introspecção, agora é a visibilidade e a conexão.  Um emblema de todos nós e o auge está na figura de um smartphone. Não é à toa, que em menos de cinco anos, quase todos nós estejamos equipados com este tipo de aparelho e que usamos com tanto fervor, já que nos permite construir a nós mesmos e nos relacionarmos com os demais e com o mundo deste modo tão distante da antiquada introspecção e tão funcional ao mundo contemporâneo”, explica a especialista argentina. Neste sentido, a Dra. Glas, conta que tenha percebido de que através da exposição oferece “um suporte sobre o feminismo e sexualidade para muitos jovens, coletivos feministas e pessoas anônimas”.

Também analisa a confluência entre o individual e o coletivo a especialista em comunição digital interativa Cristina Miguel, que na atualidade analisa o conceito de intimidade no contexto das redes sociais na Universidade de Leeds (Inglaterra). Admite que “alguns autores apontam que pode haver certo tipo de narcisismo involuntário nas práticas de exposição, porém também existe uma grande necessidade da outra pessoa, da atenção de outrem para lutar contra a sociedade que provoca o ritmo de vida moderno”. “Apenas 10 anos, os sociólogos e psicólogos afirma que a interações online estavam isolando as pessoas. No entanto, nos últimos anos há estudiosos que mostram que ex-usuários e não-usuários de internet experimentam sensações de solidão duas vezes mais que os usuários”, aponta.

O estudo de Miguel sugere que “na sociedade contemporânea, as vidas íntimas estão cada vez mais representadas e articuladas em âmbitos públicos”. Esta parece ser a chave para entender a mudança: “a natureza da intimidade tem se transformado no processo de conversão pública como resultado de destruição do secreto e, por tanto, se instala um conceito novo: da exposição, prossegue ela. Segundo ela, a privacidade e a exposição nas redes sociais, “os que participam em práticas de exposição são minorias” pois, trazem uma fase de experimentação com o uso de mídias sócias, a maioria dos usuários tem interiorizado as novas normas sociais”. Através da tentativa de acerto e erro, os usuários das redes sociais, primeiro deslumbrados, aprendem as técnicas de uma nova vida social.

Dolores Reig, autora do livro Socioeconomia, uma defesa da revolução social, também crê que “aprenderemos a dominar” a necessidade social de conexão. “Isto é algo temporal e tem que reservar tempo para a desconexão, necessário por exemplo de certos estados do processo criativo para encontrarmos conosco mesmo e nos conhecer melhor”, explica. Assim que acalma, seguimos colocando nossas fotos no Instagram, especialmente se somos caseiros.

E click após click confirmamos a máxima, “conecto, logo existo!”