terça-feira, 7 de abril de 2015

PRECISAMOS FALAR SOBRE BOBI

Estava ainda no seminário, se a memória não falhar, deveria ser o ano de 2001. Eis que apareceu do nada um cachorrinho, ele encontrou a escada e subiu e ficou ali, debaixo do banco. Bravo. Algumas pessoas se aproximaram dele e foram recebidas por mordidas. Alguns pensaram em mata-lo. Foi então que aproximei-me dele com um pedaço de linguiça Blumenau... olhou-me e abanou o rabinho. Depois disso outros colegas se aproximaram. Ele estava fedido e todo machucado. Deveria ser um cachorro de cuidados que acabara fugindo. Hoje, Marcelo, ficou responsável por lavar o cachorro e cuidar de suas feridas.

Como não havia espaço para aquele cachorro ele ficou alguns dias alojado na torre da Igreja Cristo Rei. Nas refeições recebia comida, no final da tarde, abria a porta e deixava ele correr pelo espaço. Sempre com medo que pudesse morder mais alguém. Era um cachorro bravo, mas sempre me deixou chegar perto para alimentá-lo, trocar a água, cuidar da higienização do espaço e claro, brincar. Não era apegado a cachorros, mas criei simpatia por ele, alias ele me trouxe a lembrança do único cachorro que tive até então, aos três ano de idade. Aquela situação durara duas semanas. Neste período, o reitor, pe. Roberto, chamara ele de Bobi. Ele tentava chegar perto, mas os latidos com avanço de Bobi o afastavam. Não havia aproximação. Mas a torre da igreja não era espaço para um cachorro e foi então que surgiu-me uma luz.  Pe. Roberto insistia dizendo que ele deveria ser uma filhote, pois não levantava a perna para fazer xixi... nesses anos todos, nunca vi Bobi levantar a perna.

Convenci meus pais a ficar com ele no sítio. O argumento crucial para a decisão foi: “poderiam ficar com Bobi umas duas semanas até encontrar um abrigo pra ele?” E aquelas semanas foram mais de 14 anos. Neste tempo, uma família avessa a cachorros passou a gostar e cuidar. Bobi tinha algumas manias, dormia com luz acessa; ao final do dia ia caminhar para fazer cocô longe de seu espaço; ficava durante a manhã no quintal e a tarde e noite debruçava no galpão. Somente deixava minha mãe podá-lo. Se alguém o fizesse, eis as mordidas. Adorava morder as visitas... por isso reduzimos seu espaço significativamente. Qualquer um poderia se aproximar e brincar com ele, mas deixava com todos uma pequena lembrança: a marca de seus dentes na hora da despedida. Neste meio tempo ele recebeu a companhia de Belinha. Ela o acompanhava nos passeios do fim do dia. A atentada se pendurava em suas orelhas, mas ele nunca reagiu. Parecia o cão mais velho a cuidar da mais novinha. Quando algum gato ou outro cachorro se aproximava dela, o pequeno Bobi dobrava de tamanho. Seus latidos muitas noites me tiraram da cama. Funcionava como uma alarme. Certa vez, de madrugada, soltei sua coleira, e só escutei vozes de pessoas e uma longa corrida. Nunca descobri se era de fato ladrões, mas Bobi resolveu aquele problema.

Hoje na visita e diante do diagnóstico do veterinário uma decisão tornou-se imanente. Ele estava tomado por um câncer canino. Há dias esquecera toda a vida. Não latia, não reagia a minha chegada com as brincadeiras diárias. Recolheu-se em seu espaço e ao silêncio como quem espera outra coisa senão a morte. E foi justamente ela que o veterinário receitou. Aplicada as doses de anestesia, tomou a injeção letal na sequência, cruzou as perninhas, encolheu-se e adormeceu ali para nunca mais acordar. Ao chegar em casa do trabalho, olhar para o galpão, um vazio tomou conta...