quarta-feira, 13 de agosto de 2014

INSEGURANÇA NÃO COMBINA COM CONFIANÇA



Este texto é dedicado a minha comadre Miriam Carla*

Confiar nas pessoas é algo difícil. Agora confiar em si mesmo é mais ainda. Como nos conhecemos, a grosso modo, sabemos de nossas falhas e por isso nos cobramos mais. Porém isto é um tanto injusto. Por falar em injustiça a cobrança das pessoas próximas também pode ser injusta, por mais que nos julgam não sabem de fato quais são os limites que existem. Mas não é sobre injustiça que pretendo comentar nestas linhas tortas, mas sobre a confiança. Confiança em si que não pode ser abalada pelo autoconhecimento.

Quem aprende a dirigir aprende a ter confiança. Primeiro em si mesmo, segundo nos outros. Aquele que conduz a direção precisa confiar em si por uma questão simplória. Ele sabe que é capaz de ao mesmo tempo realizar uma tarefa gigantesca de comandos e mesmo assim obter sucesso. Ele sabe que é preciso olhar por vários ângulos além da frente, também ouvir os possíveis ruídos do veículo, buzinas e tantas coisas malucas que são gritadas ou sonorizadas. Ao mesmo tempo as mãos devem ser rápidas em controlar a passagem das margens, as alavancas de pisca e outros trecos e o importante volante. Como se tudo isso já não fosse o suficiente os pés trabalham num perene pisar para acelerar, frear e embrear. O sucesso é mensurado na chegada e nunca na partida. Ufa. Somente a confiança em si mesmo permite esta loucura de comandos num mesmo movimento.

Apesar de tudo este não é o movimento de maior confiança. Existe outro que é a confiança em outrem. Ao pegar qualquer viela é preciso confiar naquele que vem noutra direção. Ele pode a qualquer momento entrar na nossa frente, mas não o faz e nunca sabemos o motivo real, apenas confiamos na sua capacidade diretiva. O que vem atrás e aquele que vai afrente também são dignos de confiança, poderiam eles nos engavetar. Confiamos na distância segura. Também existem os pedestres e as bolas que cruzam a pista. Ao parar num sinal vermelho confiamos que todos os motoristas próximos concordem com o mesmo código. E assim vamos, sempre confiando que todos estejam devidamente habilitados, que concordam com o contrato que regula as regras das vias públicas que até o mais maluco dos seres seja equilibrado ao volante... acreditamos e acreditamos e ainda acreditamos em desconhecidos, malucos e atrasados.

Se confiamos tanto no trânsito e ao volante porque é tão difícil confiar em nós mesmos? Reconhecemos os meios que trazem tristeza, os sintomas e as consequências, mas encontrar as causas da tristeza é um caminho difícil. Muito mais difícil que confiar em desconhecidos no trânsito. E aqui reside um grande problema porque da tristeza nascem medos e dos medos a insegurança. Insegurança não combina com a confiança e a superação de tudo passa por um funil, o gargalo do autoconhecimento. Uma jornada épica, mas precisa e necessária que passa necessariamente pelo caminho da fé, fé em si!

* Este texto é fruto de conversas, partilhas, desabafos ao longo de muito tempo... e além, é fruto de experiência ao lado de uma mulher que vi aprender a dirigir e sempre tive confiança em ser seu copiloto.