sábado, 12 de julho de 2014

SERÁ QUE NO FUTEBOL PROFISSIONAL HÁ LUGAR PARA DONAS LÚCIAS?

Carta a Dona Lúcia

Postado por Fabio Chiorino em 12/07/2014

Não deu, Dona Lúcia. Tentamos, mas sucumbimos mais uma vez. Aos pés de Robben e seus companheiros. Você tinha toda razão: o ser humano consegue ser desprezível. Viu como todos nos atacaram após mais uma derrota? E hoje nem valia nada. Humilhados, pisoteados. Apontaram o dedo nas nossas caras e nem tivemos a chance de explicar que passamos os últimos quatro anos acreditando que ser sede de uma Copa do Mundo era a melhor preparação que poderíamos ter.

Jogar no nosso quintal. O apoio popular, os estádios lotados pela nossa torcida, os juízes e adversários estupefatos com tamanha comoção. Como daria errado, Dona Lúcia? Como os deuses do futebol não olhariam por nós? Mais do que improvável, era inadmissível que as coisas não saíssem como imaginávamos. Repetiríamos a fórmula vencedora de 1994 e de 2002, mas dessa vez chegaríamos sem contestações. Tudo apontava para o sucesso.

O que aconteceu naquela tarde no Mineirão é o que podemos chamar de fatalidade. Se tivéssemos passado dos alemães com um gol impedido, todos agora gritariam que o campeão voltou. Naqueles seis minutos, Dona Lúcia, não perdemos o jogo. Perdemos a alma. Dias depois, vendemos a ideia de que, com um pouquinho de sorte, poderíamos ter empatado aquele jogo. Nem que precisássemos sonhar com isso por sete noites seguidas. Nós acreditamos porque basicamente é o que nos sobrou, Dona Lúcia. A fé.

Na coletiva de imprensa você viu aquela cena grotesca. Entendemos que seu coração foi tocado por uma comiseração qualquer, mas, por mais que disfarçassem, ali estavam homens exauridos pela própria incapacidade de admitir o óbvio. Nós sabemos disso, mas a roda não pode parar de girar. A sua carta caiu como uma luva, Dona Lúcia. Precisamos atingir o brasileiro que ainda tem orgulho de ser algo que nem ele próprio sabe o que é de fato. O brasileiro que não desiste nem contesta nunca. Como um terceiro goleiro que fica feliz apenas por fazer parte do grupo.

Você viu as fotos com o nosso presidente? Juntamos aquela meia dúzia de pessoas para mostrar ao mundo um apoio editado, produzido, artificial. É o que precisávamos naquele momento. Repare que tem até um garoto com uma placa para o David Luiz. Provavelmente nem sabe com quem estava sendo clicado naquele momento. Esse garoto é o nosso futuro no futebol, Dona Lúcia. Uma geração que nem desconfia que a revolução seja basicamente maquiar um choque de gestão que não virá.

Só uma correção, Dona Lúcia. Não é bem verdade quando a senhora afirmou que ninguém perde por vontade própria. Pouco fizemos para evitar esse vexame, o que, de certa forma, contribui diretamente para esse resultado catastrófico. Não diremos isso aos jornalistas de rapina. É só uma confissão que sai da garganta, e não dos microfones encobertos pelos inúmeros patrocinadores.

Vamos imaginar que nada disso aconteceu, Dona Lúcia. Apagar de nossas mentes um dos capítulos mais tristes do futebol brasileiro. A Copa do Mundo, o desempenho pífio, a goleada contra a Alemanha, a despedida contra a Holanda, as capas dos jornais de todo o mundo denunciando a nossa morte. Assim, podemos todos fingir que não recebemos a sua carta e evitar o constrangimento de ser defendidos por alguém que talvez nem exista.

Não conte pra ninguém, mas não leve a sério quando reafirmamos que foi só uma derrota e rapidamente viraremos essa página melancólica. Não é verdade, claro. O buraco e a dor parecem impossíveis de estancar. O choro, Dona Lúcia, vai durar mais do que uma noite. Talvez perdure pelo resto de nossas vidas. Mas isso fica só entre nós. Porque o resto do mundo é muito cruel.