segunda-feira, 2 de junho de 2014

O GATO BEBE LEITE, O RATO COME QUEIJO E EU SOU UM PALHAÇO

O filme “O Palhaço” é uma produção cinematográfica nacional co-escrita estrelada e dirigida por Selton Mello.  Lançado no ano de 2011 conta a história do Circo Esperança que é conduzido pelo pai Valdemar e pelo filho Benjamim que interpretam respectivamente os palhaços Puro Sangue e Pangaré. Nas três primeiras semanas em cartaz nos cinemas atingiu a marca de 1 milhão de espectadores. Vencedor de diversos prêmios nacionais e internacionais. A construção do personagem principal, Benjamim, é inspirada no artista circense brasileiro Benjamin de Oliveira, famoso palhaço negro que despontou em 1885 e que, ainda criança, chegou a fugir de casa para correr atrás de suas aventuras e tomar parte de um circo. A história do filme acontece em torno de Benjamim num momento único de sua vida, momento que está a viver uma crise existencial muito grande. Ele é um palhaço sem Documento de Identidade, nem CPF e muito menos comprovante de residência. A ausência de documentos não é apenas o retrato do indigente, mas ela é simbólica. Ao não apresentar documentos ele está dizendo através de símbolos que ele não se reconhece como alguém, ele é o próprio indigente: não sou ninguém.  O momento mais forte da crise está retratado na frase: “eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?”.
A arte reflete a vida real e com ela podemos refletir. O que significa “palhaço”? Que abordagem nós temos dele? Para quem um palhaço trabalha? O palhaço não precisa de palavras para ser descrito. Por si só a maquiagem e o nariz vermelho já o caracterizam. Como também é impossível ficar indiferente ao palhaço. As crianças podem amá-lo ou permanecer com medo, mas o palhaço, por si, não passa despercebido. Ele causa uma reação, ele é uma figura marcante e não precisa de legendas para descrevê-lo. Caras e bocas, gestos exagerados e figurino colorido, provocador de risadas. Mas no filme existe uma crise interpretada por Selton Mello no personagem Benjamim e é esta crise que dá o tom da história. O palhaço que ri chora por dentro.
Durante o filme muitos buscam Benjamim para resolver problemas, uns grandes outros pequenos, mas ele não resolve os problemas de ninguém. A não resolver ele também torna-se vítima de exploradores: o bombeiro, o prefeito da primeira cidade, o mecânico, o dono do bar e até mesmo um delegado. Embora todos em sua volta vivam harmoniosamente, Benjamim é o retrato da crise. E a crise assume uma característica dramática, quando diante do picadeiro ele não provoca mais risadas. O palhaço cantando ao violão perdeu graça e o público não ri. Sem risos o palhaço não existe. O que dá sentido à existência, desaparece no ar. Mas para ter graça Valdemar, o palhaço Puro Sangue improvisa um disfarce da realidade e a plateia ri, mas as risadas não contagiam Benjamim, o palhaço Pangaré. Neste momento de queda, o palhaço questiona a busca da felicidade: qual é o seu caminho?

 O corpo também fala. A crise do não aceitar o chamado é mostrada no próprio corpo de Benjamim. Enquanto palhaço seu sorriso apenas é desenhado. Com sua fala engasgada e sua postura reta, de quem enrijeceu com tantos dilemas mal resolvidos que não consegue traçar diálogos fora do picadeiro. Suas falas são monossilábicas e difíceis de serem entendidas e então é vitimado diante de aproveitadores. Outro momento que é forte na representação corporal acontece diante do mecânico e do delegado. O que outrora estava acostumado aos palcos torna-se expectador. A falta de atitude ou a impossibilidade delas faz o ator sujeitar-se a plateia.
Na encruzilhada da vida, algumas vezes representadas por tábuas encruzilhas ao chão, Benjamim resolve abandonar o circo. No abandono ele encontra-se com seus medos. É um encontro dele com sua própria consciência. Ao buscar Ana no ‘Aldo Auto Peças’, na verdade, busca a si mesmo e não Ana. Mas tem dificuldades para aceitar-se. Quando aceita retorna ao picadeiro. Ao aceitar-se não é o palhaço melancólico de outrora que se apresenta, mas é alguém que encontrou a própria felicidade no momento que descobre sua vocação. Ele encontrou alguém que o fizesse rir. Este encontro só foi possível na comunidade. Na individualidade não houve encontro. Ela se realiza na comunidade e nela Benjamim reencontra o próprio sorriso.
Juca Bigode, personagem de Jackson Antunes, numa conversa com Valdemar no início do filme, logo após a primeira cidade da trupe, mostra um conformismo diante da vida. Diz Juca, “cada um faz aquilo que sabe fazer (...)o gato bebe leite e o rato come queijo”. Mas o conformismo diante da vida não é sinal de felicidade. O conformismo não é o retrato do vocacionado, daquele que descobriu o seu chamado. O conformismo é retrato do comodismo. Ao voltar ao circo sem pestanejar Benjamim dá novo sentido a frase: “o gato bebe leite e o rato come queijo, eu sou um palhaço”. Quando vestido de Pangaré, Benjamim acrescenta “eu sou um palhaço” ele está acrescentando vida a própria ação. Ele está acrescentando um “sim” para aquilo que realmente o constitui como um ser humano. Neste momento o circo e todos aqueles que o buscavam apenas para resolver seus problemas, deixam de ter a cor cinza carregada e se constituem com risos. Há leveza nas atitudes. O assumir-se enquanto um ser que busca a felicidade é assumir a própria vocação. O cristão chega a felicidade quando diante de Deus reconhece seu chamado e diz com forças “sim” para Deus e para si mesmo. em provocações. O filme começa quando o circo cruza uma plantação de cana-de-açúcar no norte de Minas Gerais. O foco da cena não é o circo, mas a estrada. A estrada é o caminho a ser percorrido. É a trilha a ser superada. Ela não é fim em si mesma, ninguém sai para ficar na estrada. Todos que na estrada estão é porque desejam chegar em algum ponto. É a representação antropomórfica da passagem de um estado de luta para outro estado, quiçá da felicidade. Em meio a poeira da estrada de chão surge o nome do circo: “Circo Esperança”. Não é à toa que o nome do circo chama-se assim. Diante da crise há um sinal de esperança. Mas ela somente se faz presente quando o sujeito da crise assume sua vocação. O chamado só tem sentido quando há uma resposta. E o nome do circo em meio a uma passagem nos remente a uma pergunta: qual é a nossa esperança? Qual é o nosso chamado? Benjamim apenas ouviu o chamado quando silenciou o coração. No barulho não ouvimos quem chama. Os cortadores de cana do início do filme, à beira da estrada mostram a realidade dura e sofrida, mas foi nesta realidade que Benjamim, próximo do final do filme reencontra o caminho. Sentado num caminhão de trabalhadores de realidade dura e sofrida, arranca sorrisos.
 Nem todos os personagens são exemplos. Lola, a companheira de Valdemar rouba parte do dinheiro do circo. Ela trai Valdemar, ao perceber todas as ações, Guilhermina a menina, transforma-se. O que antes era sorriso, ao perceber a corrupção humana torna-se tristeza. A beleza da infância é destruída pela ganância do adulto. O pecaminoso mostra a morte da beleza. Mas, diante da dor ainda persiste a beleza, quando Benjamim decide abandonar o circo a criança Guilhermina é única a olhar para traz e chorar. A beleza da vida está representada na inocência do olhar. Talvez seja esta inocência que faz Valdemar agir com humanidade ao desmascarar, diante de todos, a imoralidade de Lola. Também é esta beleza que se transforma em rainha, quando no final do filme, o espetáculo circense se encerra. Mas as ações de Guilhermina são conduzidas por uma figura sacra: São Filomeno[1]. A beleza da inocência está aliada a fé e na aceitação do seu chamado.




[1] A título de curiosidade São Filomeno foi martirizado em Ancira, em 275. É tomado como protetor dos músicos e comediantes. Durante o reinado de Diocleciano o ator Filomeno é contrato por um nobre rico para ir ao templo fazer uma oferenda a um deus pagão. No momento da oferenda ele grita “não o farei!” Todos se espantam, e imediatamente ele é reconhecido, denunciado, prezo e martirizado por ordens do imperador.