quinta-feira, 12 de junho de 2014

NEM ERA DIA DOS NAMORADOS

Mas ele não estava aí...

Um dia nublado. Os passos largos procuravam entre as duas construções um lugar seguro. Olhos azuis, cabelos castanhos claros, estatura mediana. Feição preocupada. Fitei o olhar pela surpresa daquele corpo entre aquelas construções. Vestida com uniforme de trabalho durante a jornada laborativa cortou todos os caminhos e desviou todos os olhares. Entramos pela mesma porta, joguei-me no balcão pela preferência do atendimento, mas ela preocupada fez menção de ir por primeiro, gentilmente, motivado pela curiosidade permiti seus questionamentos. Com voz fraca e triste diz: quero marcar a data de meu casamento.

Para aqui meu parágrafo narrativo. Pensei com meus botões inexistentes, como assim “quero marcar a data do meu...” ela vai casar consigo mesma? Quero? Não há outro querente? Casar, olhar triste e passos apressados fazem sentido? Cadê a outra parte interessada? Entre tantos questionamentos ela ouvia as orientações religiosas e burocráticas mas em minha mente ribombavam as perguntas e as hipóteses loucas.  Onde estava a outra parte? Ou melhor, qual motivo não o permitirá estar aí. Trabalho, ocupações, preso, sei lá, não encontrei nenhuma resposta que me permitisse compreender tamanho absurdo. Não justificaria o não estar na marcação do casamento. É uma celebração da vida a dois e a sua marcação era unitária. Estava vazio, faltante de um abraço de acalento com a perspectiva de uma nova construção. Ele não estava onde deveria estar. Nem jogo do Brasil em Copa do Mundo poderia justificar a ausência. Alguém dirá, mas ela só marcou. Sim ela só marcou o início da oficialização da celebração do amor. Era só o início, mas ele não estava no início. Ele esteve no pedido de namoro, ele esteve no dia que se conhecerem, ele esteve no noivado, em todos os inícios, menos neste, ele esteve quando se apaixonou pela dona dos olhos azuis. Não estava. Foi-se pelas linhas.

Como ele não estava, enquanto eu me perdia em pensamentos fitava aqueles olhos azuis que em nenhum momento esboçou sorriso, também pudera. Ele não estava aí.