quinta-feira, 15 de maio de 2014

NOÉ, A ARCA, O FILME E O DEVER



Já faz tempo que vi o filme e ainda não consegui comentar. No dia que havia programa para ver o filme conversei com uma ex-aluna sobre o filme e seus significados. E quero nestas linhas transcrever algumas ideias rápidas.

Se você ainda não o viu não espere um filme bíblico no sentido estrito do termo. Parte do enredo bíblico mas explora outras questões. Não vou comentar o texto, mas sim o filme. Noé (Russell Crowe) vive com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros. Um dia, Noé recebe uma mensagem do Criador de que deve encontrar Matusalém (Anthony Hopkins). Durante o percurso ele acaba salvando a vida da jovem Ila (Emma Watson), que tem um ferimento grave na barriga. Ao encontrar Matusalém, Noé descobre que ele tem a tarefa de construir uma imensa arca, que abrigará os animais durante um dilúvio que acabará com a vida na Terra, de forma a que a visão do Criador possa ser, enfim, resgatada.

Detalhe, em nenhum momento Deus é chamado de outra forma senão “Criador”. A figura de Matusalém é controversa. Aproxima-se algo entre um mago e alguém com êxtase produzido por chás e ervas e com poder de cursa. Concordo com jornais católicos que afirmam que o filme mostra um “Noé sem Deus”, mas é um Noé crente e seguidor de uma moral próxima a descrição kantiana. Religiosamente longe do cristianismo e muito próximo de uma new age – a julgar pela presença dos anjos descaídos e subidos. O dever para Noé não é uma obrigação a ser seguida em virtude de um ente superior. Suas atitudes não tem significado em si, senão na justificativa do Criador. Na radicalidade aproxima-se de seu perseguidor constituindo uma ação paradoxal. Intenção e dever (em Kant) dependem do sujeito epistemológico (eu transcendental) e não do eu psicológico (indivíduo). Para Kant, o sujeito transcendental trata-se de uma maquinaria (aparelho cognitivo) subjetiva, universal e necessária (presente em todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares). Assim, todo ser saudável possui tal aparato, formado por três campos: a razão, o entendimento (categorias) e a sensibilidade (formas puras da intuição-espaço e tempo). Na sensibilidade a figura do demônio é bem descrita na ação desumana de glutões e pervertidos e ele é um agente motivador da degradação.

Em Kant, a razão (faculdade das ideias) é que preserva os princípios que articulam intenção e dever conforme a autonomia do sujeito. Desse modo segue-se que tais princípios não podem ser negados sem autocontradição. Daí deriva a ideia de liberdade kantiana, de um caráter sintético a priori, sendo que sem liberdade não pode haver nenhum ato moral; para sermos livres, precisamos ser obrigados pelo dever de sermos livres. Alguém poderia questionar que para Noé não há evidencias de liberdade, mas de apego incondicional ao Criador a ponto de matar suas netas. Mas diante dela deixa de lado toda moralidade e rende-se a humanidade. Outro ponto questionável e de agonia é a presença da morte dos humanos durante o dilúvio. Choro e ranger de dentes tomam conta da cena escura. Mas Noé parece transcender via imperativo este momento. Viver e morrer não é uma escolha sua, mas um direcionamento do Criador. Uma necessidade de uma ação por respeito à lei. Mas que ela é derrubada frente a própria humanidade que se refaz diante de si.

Não é um filme religioso e não pode ser usado para entender a Sagrada Escritura e os mistérios do acontecimento, mas serve para pensar o Imperativo Categórico e os limites da moralidade e a inconsequência dos atos dos homens.

Referência: KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. São Paulo: Martin Claret: 2004.