domingo, 18 de maio de 2014

NASCI CORINTHIANO

Fazem mais de três décadas que choro, sofro, torço e agredito que vale a pena ser corinthiano.

Ninguém se torna corinthiano, você já nasce corinthiano. Filho de pai do corinthiano, aos três anos ganhei um camisa alvinegra listrada. Está guardada até hoje. O ser corinthiano está ligado a uma história de ausências que hoje completa-se e as gerações que virão não saberão o que é. A começar pelos 23 anos de jejum. Quando nasci já havia superado esta parte mas ainda choro ao ouvir pela milésima vez Fiori Giglioti narrando a vitória sobre Ponte Preta em 1977 – foram 23 anos em 7 segundos. Mas quero focar na história de ausência que na escola primária me faziam questionar o estar torcedor, tentei mudar, mas esta vontade nunca passou dos primeiros segundos, porque ninguém escolhe ser corinthiano, você nasce corinthiano. Mas você não está, corinthiano simplesmente é.

Até os anos noventa todos bradavam, é um time regional. Tupãnzinho e Neto mostraram que não. Eis que vem o primeiro título brasileiro. Vencemos um, que sufoco. Lembro-me de meu pai com o ouvido rente ao radinho velho de pilhas me falando que éramos campeões, finalmente campeão brasileiro. Uma barreira vencida. Depois disto vieram anos de tortura do maior rival motivado pelo dinheiro do leite. Mas após uma década, tivemos também nosso leite e duas conquistas seguidas e o topo do mundo. Mas o mundo não é tudo sem a América. Ano pós ano, classificação, eliminação e não classificação com o vexatório rebaixamento. Na rua da amargura nasce o amor roxo. Uma nova década ora com títulos, ora em páginas policiais, ora com ladrões, ora com juízes, ora com conquistas. A primeira década deste século mostrou que ser corinthiano é viver entre o céu e o inferno o tempo todo. Titebilidade, este é o advérbio que levou aquilo que nos faltava, ao sangue vermelho da América. Após uma eliminação gorda, uma conquista, uma aposta num trabalho e novamente estamos no topo do mundo. E não existia mais argumentos para não legitimar o título. Não vi o jogo mais importante, mas passando por Apiúna após uma manhã difícil entrei num carreata e tive a certeza: o mundo é nosso, de novo!

Entre escândalos, mortes e mentiras hoje é o grande dia para todo corinthiano. Faltava a ele a casa. Não somos mais sem tetos. Temos um estádio. Não importa o nome, se é Itaquera, se for São Paulo, se for qualquer coisa... isso é secundário, temos um estádio para ser chamado de nosso. Hoje não falta mais nada e até mesmo o resultado é secundário porque primeiro é ser corinthiano, o resto, é só resto.

Agora toca pela primeira vez o hino e eu deixo de lado este texto e vou ver o jogo.