quinta-feira, 27 de março de 2014

PELO DIREITO DE PROTESTAR

Texto escrito por um escolar:

Bem, quero deixar claro que não irei citar nomes de quaisquer indivíduos que estavam presentes lá, por questões de segurança.

Alguns dias antes da manifestação, eu e o Coletivo Tarifa Zero organizamos um evento de panfletagens no Facebook, cujo objetivo era informar o povo sobre as falcatruas da SETERB e o descaso de tal empresa com o usuário do transporte "público" (entre aspas, pois você deve pagar para utilizá-lo, oque torna a palavra "público" um mero apelido). O público alvo era o pessoal que saltava na Fonte, e foi para lá que fomos. Logo que chegamos lá, nos deparamos com uma viatura da Polícia Militar patrulhando o terminal, e achamos aquilo extremamente estranho, pois poucos sabiam da panfletagem.

Conseguimos distribuir os panfletos sem qualquer problema, tudo ocorreu bem, apesar de a presença policial nos perturbar. No entanto, poucas pessoas demonstraram interesse pelos panfletos, alguns até foram grosseiros conosco e discutiram com um de nossos camaradas. No final organizamos uma roda no meio do terminal para tentar interagir com o pessoal, mas como já era de se esperar, poucas pessoas demonstraram interesse.

Dias após a panfletagem, criamos o evento no Facebook, a manifestação, que na rede social contava com mais de mil confirmados e mais algumas centenas de talvez e convidados. Na prática, apenas uns oitenta ou cem manifestantes haviam se reunido, não sei dizer com certeza pois a tensão já estava no ar, não havia tempo para contar cada camarada que estava disposto a lutar pela causa mútua. A tensão se devia à forte presença policial, que dessa vez contava com menos de dez policiais militares da ROCAM, empunhando escopetas com munição de borracha, cães policiais (Pastor alemão), que já estavam muito agitados e estressados, devo dizer; e haviam policiais empunhando cassetetes também.

A hora chegou e começamos a marchar. Nosso rumo era da prefeitura até o Terminal Fonte, que iríamos invadir utilizando a técnica "Pula-Catraca". Todos deveriam ir para casa sem ter de pagar o preço absurdo do transporte. Já quando saímos da prefeitura, um dos oficiais abordou um colega meu e disse para ele que iriam nos escoltar, e que não deveríamos "fazer baderna". Durante o trajeto, a ROCAM vinha logo atrás, mordendo nossos calcanhares, e logo à frente do grupo de manifestantes vinha uma viatura da PM; e o que nos estressava naquilo tudo era o som dos cães latindo enlouquecidos de raiva, os policiais com sua aparência austera e imóvel, e os covardes da ROCAM acelerando suas motos para nos fazer pressão. Sentamos várias vezes no meio da estrada, por alguns minutos, para demonstrar que a pressão da PM não nos amedrontava, e sempre havia um burguês em seu carro luxuoso que furava o bloqueio da polícia e tentava passar entre os manifestantes, quase atropelando alguns deles.

Alguns de nós, inclusive eu, invadimos os pequenos terminais de ônibus, sem tantas pessoas (pois já não era mais o "horário de pico"). Tivemos de parar várias vezes pois a polícia tentava nos apressar, os carros furavam o bloqueio e não nos respeitavam. Quando chegamos no Terminal da Fonte todos estavam eufóricos, todos estavam felizes por ter causado aquela parada demorada em uma das principais ruas da cidade, a Rua 07; e nosso plano era bloquear a entrada e saída de ônibus daquele terminal, pois havia uma estratégia por traz disso: se a frota parar, o SIGA deve pagar seus funcionários da mesma forma, ainda que estejam incapazes de se movimentar. Pelo menos esta foi minha visão da estratégia, um pouco limitada.

Um dos ônibus tentou apenas estacionar, mas como o pessoal estava com os nervos á flor da pele, tentaram pará-lo da mesma forma. O motorista deste ônibus tentou atropelar o pessoal que iria parar em sua frente, não se sabe se foi por pura ignorância ou se foi por desespero, mas mesmo assim ele o fez, e atropelou um dos rapazes, meu conhecido. O rapaz não se machucou, até onde sei, mas enlouqueceu de raiva e jogou uma pedra no vidro do ônibus, que se estraçalhou na mesma hora. Não sei informar se ele jogou a pedra ou se bateu com ela na janela, mas quebrou. Muita gente repreendeu o ato do rapaz, o que o deixou mais irritado ainda. Depois fiquei sabendo que ele havia sido detido, pois acreditou que os PMs iriam ajudá-lo a punir o motorista que tentou atropelá-lo, mas ele estava enganado, os policiais não fizeram muitas perguntas e logo o algemaram. Ele era de menor, e os PMs não usavam identificação, logo, não poderiam prender o rapaz pois está na Constituição para quem quiser ler: "Aquele que é detido tem o direito de saber quem é o oficial que está lhe prendendo e por quê.", algo assim, mas está lá. Este foi o menor dos crimes que os policiais cometeram. O show estava apenas começando.

Fizemos um cordão de isolamento para impedir a saída dos policiais, que já haviam detido quatro menores, inclusive uma garota (não havia policial feminina lá, logo, é mais um crime que entra para a lista de delitos dos "homens da lei"). Um dos oficiais chegou para o pessoal, e segundo ele, estava ali apenas para negociar. A negociação estava mais à favor dele do que de nós, pois ao seu lado haviam dois gorilas da ROCAM com escopetas e bastões, e havia um PM covarde com spray de pimenta também. A negociação estava dando certo, e grande parte dos manifestantes havia concordado em seguir a viatura da PM até a delegacia do Garcia, pois esta foi a opção dada pelos policiais, e lá os jovens seriam soltos. Mas havia outra parte do grupo que não queria negociar, queriam ficar ali até os jovens serem libertados, e foi aí que o querido oficial vomitou para si mesmo as seguintes palavras sujas: "Se não querem negociar..." e puxou seu cassetete.
Os soldados covardes da ROCAM abriram fogo contra os manifestantes totalmente desarmados. Não tínhamos pedras, nem paus, nem barricadas, nada. Um dos PMs soltou uma rajada de spray de pimenta que cegou temporariamente alguns dos manifestantes, e vários outros vieram para o corpo-a-corpo com cassetetes e ponta-pés, na maioria das vezes até contra mulheres, meninas e rapazes novos. Eu estava logo atrás do cordão, e quando ouvi os tiros pulei para o pátio do terminal e fiquei procurando por duas amigas minhas, pois havíamos nos perdido em meio à confusão, e isso tudo aconteceu em cinco segundos. Eu gritava o nome delas e nada, não havia mais muitas pessoas ao meu redor, e quando olho para frente um dos meus amigos de luta estava peitando um dos covardes da ROCAM, visto que este meu amigo já havia levado uma rajada de spray de pimenta minutos antes. Ele foi defender uma menina que iria apanhar dos PMs, e ele mesmo acabou se machucando, pois na hora em que ele peitava o policial, o mesmo desferiu um tiro à queima roupa pouco acima do joelho de meu amigo, que teve muita sorte, pois a bala bateu em sua bicicleta e em sua perna, perdendo parte da pressão. Quando vi aquilo me toquei que deveria correr, pois eu poderia ser capturado e surrado por um bando de porcos fardados que não tem coragem para lutar de igual para igual, e acabei inalando um pouco do ar emporcalhado pelo spray de pimenta. Minha garganta trancou naquela hora, e então corri para trás de um ônibus e lá vi uma mulher chorando desesperada, e esta mesma mulher não participava do protesto.

Durante a corrida para fora do terminal, muitos manifestantes pilharam tudo que estava em seu caminho, em resposta à covardia da PM. Ouvi relatos de um rapaz que havia dado uma voadeira num painel informativo e o atravessado, e vi outros chutando lixeiras e derrubando painéis. Fiquei com vontade de pilhar um pouco também, estava com raiva, mas o desespero de ter perdido minhas amigas era maior que o ódio. Cheguei ao lado de fora do terminal e lá havia alguns manifestantes, me juntei a eles e logo atrás de nós os PMs vinham vindo. Corremos para a frente do Bistek, corremos para a praça na frente do Angeloni, corremos pela Rua 07, corremos para todos os cantos; estávamos dispersos, com raiva, machucados e alguns estavam fora de si. Não obstante, fomos todos juntos para uma praça e conversamos a respeito dos fatos, mas já estávamos muito reduzidos em números.
Quando voltei para casa, fiquei sabendo que uma galera de 20-30 manifestantes seguiram a viatura da PM até a delegacia, e lá ficaram até os pais dos rapazes chegarem. Os policiais não deixavam que a família se comunicasse com os jovens, e foi aí que ouviram barulhos de tapas na mesa e vozes rudes gritando xingamentos horríveis. Os policiais covardes estavam tentando desmoralizar os jovens detidos, acusados de vandalismo (um quebrou a janela, como eu já havia dito, e os outros tentaram pichar um ônibus, conseguindo pichar boa parte da mensagem que queriam passar). A polícia cometeu vários crimes naquele dia, mas o mais repugnante e imperdoável de todos foi a covardia com que trataram o povo, não só manifestantes, pois até idosos que esperavam os ônibus apanharam da polícia. Tivemos a certeza de que a Polícia Militar do município de Blumenau não é diferente da PMRJ, ou da ROTA de SP, ou da Gestapo nazista. Havia até os ditos P2 (policiais infiltrados na multidão, encarregados de criar tumulto e depredação para facilitar a opressão policial) entre a galera, eu pensei os ter identificado, mas nunca vi seus rostos outra vez, é bem possível que eram eles.


Este é meu relato, o relato de alguém que viu tudo que aconteceu lá e que saiu ileso. Minhas amigas saíram ilesas. Mas muitos foram feridos, física ou psicologicamente, e nós teremos nossa chance de vingá-los algum dia. A Tarifa vai cair, e se não cair, nós não sairemos da rua. Percebemos também que estamos sozinhos, pois ninguém irá lutar por nós. Nem advogados ativistas nós temos por aqui. Não obstante, nada nos impedirá de lutar.