quarta-feira, 5 de junho de 2013

A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS TABLET´S EDUCACIONAIS

Texto de Lauro R. Roberto Lostada (1)



Nossa sociedade tem se tornado cada vez mais tecnológica, fazendo as pessoas verdadeiras escravas de recursos que tornam a vida mais fácil, mas que também oferecem grandes riscos. Vivemos num mundo interconectado, sem fronteiras e sem margens, mas sempre criticamos a escola, de uma maneira geral, por ser um dos únicos lugares que não soube ou não quis apropriar-se dessa novidade. Ainda encontramos salas com quadro negro e giz, arquitetadas arcaicamente sob a égide cultural de uma tradição em que todas as tecnologias precisam ser desligadas à porta. Não há promessas de avanços, pois se considera que a educação é um ponto inerte onde existe um professor, seu livro e um quadro empoeirado. Esse modelo, embora muitas vezes criticado, é reelaborado e celebrado em nossas instituições de ensino superior, que, contrariamente ao seu discurso, ainda incutem essa mesma cultura.
O que é preciso ter em mente é que, apesar dessa cultura paralisante, a pressão social pelas mudanças acaba por gerar certos avanços na educação. Assim, o termo inovação/mudança é assumido como um fim em si mesmo e como solução para os complexos problemas educacionais. Ele tem legitimado, de alguma forma, propostas conservadoras, homogeneizado políticas e práticas conservadoras, promovendo a repetição cíclica de propostas que não consideram a diversidade dos contextos sócio-culturais.
Segundo Travers (1978), existem duas formas de se fazer com que a tecnologia alcance o âmbito escolar: a primeira seria o emprego de tecnologias provenientes de outros campos; a segunda, o desenvolvimento de aplicações específicas próprias. A opção de tomar uma tecnologia externa com finalidades formativas gera a transferência e adaptação de tecnologias desenvolvidas em outros campos, que para Travers e MacDonalds (1993) dificilmente poderiam levar a uma inovação real na educação. Somente o desenvolvimento de uma educação baseada em uma tecnologia especialmente pensada para esse fim, apoiada numa ciência da aprendizagem, daria sentido à concepção de uma teoria da aprendizagem aplicada.
O contexto atual deixa claro que a indústria sabe aproveitar essa brecha deixada e acaba invadindo o campo educacional com diversas tecnologias que, de uma maneira geral, apenas transfere tecnologias de um campo para o outro, sem grandes novidades ou implementações. Assim é que vislumbramos o avanço dos computadores, lousas digitais e projetores nas escolas. As tecnologias começam a tomar um grande espaço nas escolas sem, contudo, haver uma preocupação maior sobre como ela é utilizada. Neste sentido é que podemos nos deparar com a concepção de Paulo Cysneiros (1999) de que esses recursos acabam não refletindo uma melhoria no ensino, mas apenas transparecem uma “inovação conservadora”. Não há mudanças efetivas nas práticas didáticas, mas apenas o professor deixa de escrever no quadro e traz sua aula pronta num “PowerPoint”, por exemplo.
Há poucos dias foi anunciado um grande investimento para a educação, o denominado “Pacto por Santa Catarina” e uma das estratégias traçadas pelo Governo do Estado para a melhoria da educação foi a compra de tablets para os professores da rede estadual de ensino. Muitos não aceitaram o recurso, embora a grande maioria tenha recebido o “presente” com grande comoção. Não houve nenhum curso ou orientação sobre os benefícios do equipamento para a prática pedagógica do professor. Na verdade, o aparelho conta com uma tela de apenas 7 polegadas e possui conexão de vídeo via tecnologia HDMI, o que ainda não é comum aos projetores encontrados no mercado brasileiro. Não há, portanto, como o professor mostrar para seus 40 alunos o que está visualizando em seu aparelho portátil. Para piorar, a grande maioria das escolas também não conta com rede de internet sem fio, o que torna o aparelho um verdadeiro brinquedo sem utilidade, uma ilha no meio do oceano. Há que se lembrar, aliás, que a internet oferecida às escolas raramente passa de 5 Mbps, ou seja, você tem para uma escola inteira a mesma coisa que você tem em casa ou até menos, na maioria dos casos.
Na verdade, o que fica claro é que não há uma revolução educacional sendo programada através dessas tecnologias, mas apenas há uma invasão da indústria que encontra no campo educacional um grande nicho de mercado. Não são desenvolvidos projetos inovadores para que a tecnologia inove as práticas pedagógicas. Há, tão somente, recursos de “inovação conservadora”. E, no caso dos tablets, o que vemos é uma triste repetição da história, quando conquistadores trouxeram seus “espelhos” para brindar a ingenuidade de todo um povo. Muitos se deixam seduzir por esses presentes e não conseguem perceber que o que realmente importa não está sendo levado em consideração nas políticas públicas e que, na verdade, a educação persiste deseducando, mantendo cada um no lugar que a história das classes traçou.
Não podemos, evidentemente, negar a importância das tecnologias para a educação, mas precisamos ter os olhos abertos para que esses recursos transformem nossas práticas e nos tornem melhores, não escravos. Se os tablets transparecessem um projeto audacioso de inclusão dos professores no universo das mídias, talvez tivéssemos uma oportunidade importante para reavaliar o papel da educação num mundo altamente tecnológico, mas sabemos que, da forma com que as tecnologias caem nas escolas, não há mudanças, apenas camuflagens. Não podemos aceitar esses “espelhos”, pois precisamos incutir a reflexão como um dos elementos fundamentais de toda e qualquer mudança que almeje transformar a educação para melhor.


REFERÊNCIAS:
CYSNEIROS, Paulo Gileno. Novas tecnologias na sala de aula: melhoria do ensino ou inovação conservadora. Informática Educativa. Vol. 12. nº 1, 1999. UNIANDES – LIDIE.

TRAVERS, 1978. In: Curso de Tecnologia Educacional. Programa de Educação Continuada a Distância. Portal Educação, 2008.

MACDONALD, 1993. In: Curso de Tecnologia Educacional. Programa de Educação Continuada a Distância. Portal Educação, 2008.
  
(1)

Filósofo (UFSC), Especialista em Prática Pedagógicas Interdisciplinares (FACVEST), Especialista em Mídias na Educação (FURG), Mestre em Educação (UFSC). Endereço eletrônico: lostada25@yahoo.com.br.