quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O VASO DA MORTE

O assoalho era de uma cor clara. As tábuas estavam próximas, encerado, parecia liso. Não cheguei a pisar, mas está lá. Brilhando. Ao fundo as cortinas brancas, sem rendas, sem nada, lisas, desciam do alto e tocava o chão de madeira. Parecia familiar, parecia distante. Junto as cortinas uma mesa, nua de toalha, mas coberta por um plástico. A mesa era rudimentar, maneira, da mesma cor do assoalho estava no canto, mas não pressionava a cortina que se movia com o vento. O movimento era calmo, o ir e vir era lento. Debaixo da mesa um vaso com terra seca. Estava envolto de um plástico branco, igual aqueles do segundo dia de novembro. Um laço mal feito da mesma cor do plástico apertava o vaso. Se a cortina não, o vaso sim. Do vaso brotava uma folha verde, desconhecida, não era vida, não era morte, não era nada, era apenas um vaso, numa sala vazia com uma mesa simples e uma grande cortina. Mas não sei se era vida ou se era morte.



Acostuma-te que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade. Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque aflige a próprio espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortes, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces do frutos de um tem bem vivido, ainda que breve.

EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). São Paulo: UNESP, 2002, p. 22-26.