terça-feira, 14 de agosto de 2012

Cota de qualidade?


Crítica à opinião da RBS: cota de qualidade.
Jornal de S. Catarina, Ano 42, n. 12.606, Sábado 11 de agosto de 2012: Recentemente aprovada pelo Congresso e no aguardo da sanção presidencial, a chamada Lei das Cotas, que prevê a reserva de 50% das vagas de todos os cursos das universidades federais para estudantes que cursaram integralmente o Ensino Médio em escolas públicas, está provocando contrariedade dos reitores e hesitação do Ministério da Educação. As universidades alegam que a nova legislação fere a autonomia das instituições e desrespeita as especificidades regionais, além de concorrer para a queda de qualidade do Ensino Superior. Mas praticamente todas são favoráveis a políticas afirmativas e a maioria já adota percentuais próprios para a inclusão de cotistas. A preocupação dos diretores e professores é com a qualidade de cursos que já alcançaram padrões de excelência, como, por exemplo, a Medicina. Na Universidade Federal de São Paulo, por exemplo, o percentual de cotas sociais para este curso é de 10%. O aumento repentino de alunos egressos da rede pública dificilmente deixará de afetar o rendimento das turmas. Este é o ponto: a melhor ação afirmativa que este país poderia executar é a qualificação do ensino básico, para que os alunos da escola pública, independentemente da origem racial e das condições econômicas de suas famílias, possam disputar vagas na universidade em condições de igualdade com os demais estudantes. Evidentemente, ninguém pode ser ingênuo e acreditar que séculos de exclusão serão resolvidos com uma decisão política. Justo seria investir na qualificação do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, de modo que os estudantes da rede pública pudessem chegar ao vestibular habilitados a disputar vagas sem a necessidade do rótulo da discriminação. Se isso é um trabalho para décadas, que pelo menos se preserve o bom senso e se revise esta imposição do Congresso, que aponta para o retrocesso em instituições que já avançaram muito.

A Opinião da RBS: cota de qualidade na edição do final de semana traz algumas reflexões importantes. A chamada lei das Cotas que reserva 50% das vagas das universidades federais para estudantes de escolas públicas nos fazem pensar sobre diversos aspectos. Um deles mostra que é evidente que isto não resolverá o descaso que a rede pública é tratada pela administração pública. Reservar cotas não é uma resolução de problemas, mas uma pseudo-maquiagem que justifica e afirma que estes estudantes não estão preparados para concorrer em pé de igualdade com outros por vagas nas universidades públicas, é um problema de base, de falta de investimento, de salários e condições inadequadas aos profissionais da educação, de contratações duvidosas, de indicações de confiança, da ausência de uma filosofia da educação verdadeira e séria. Parece que melhorar o padrão das instituições públicas não está na pauta, apenas encher as universidades federais. Mas esta problemática toda não pode servir de suporte para afirmações como a da opinião da RBS que afirma que “o aumento repentino de alunos egressos da rede pública dificilmente deixará de afetar o rendimento das turmas”. Penso que frases deste tipo representam um olhar preconceituoso contra uma parcela significativa de estudantes com capacidades que forma vítimas de péssimos administradores públicos e pior são estes que daqui a um mês levarão um discurso de patriotismo para um desfile de rua sem sentido e desprovido de reflexão.

Segundo as orientações do jornal para a participação dos leitores colaborações por carta devem contar no máximo 7 linhas (400 caracteres). Então o que enviei para o jornal foram apenas estas linhas:
A Opinião da RBS: cota de qualidade traz algumas reflexões importantes. A chamada “lei das Cotas” faz pensar sobre diversos aspectos. Ela mostra que é evidente que isto não resolverá o descaso pela qual a rede pública é tratada. Reservar cotas não é uma resolução de problemas, mas uma maquiagem que justifica que estes estudantes não estão preparados para concorrer em pé de igualdade com outros, é um problema de base, e não um problema de cotas. 
Publicada na edição n.12.608, p. 2