sábado, 17 de setembro de 2011

Coisos humanos

Texto de Luiza Gerent (@LuizaGerent)

A água é o princípio de todas as coisas, já afirmava Tales, formando o que pode ser considerado a primeira proposição filosófica. Uma teoria capaz de ainda hoje formar teses, especulações e inúmeras conclusões incertas. E talvez seja nisso que se concentre o filosófico no dito de Tales, na magia do inacabado, numa filosofia sentida, que se faz justamente sem querer se fazer, baseada apenas na sorte de crer.

Muitas vezes, o grito da essência, do início, do ainda puro, é facilmente abafado pelos apelos materiais, industrializados, materializados e principalmente dignos de inúmeros rótulos. Rotulamos coisas e coisas sempre! Coisa bicho, coisa gente, coisa isso ou aquilo... qualquer coisa nas mãos de seres humanos torna-se mera coisa. No fim até nós, "coisos humanos".

Esquecemos do começo para continuar e esse talvez seja, e é, é nosso pior, mais assombroso e impiedoso erro. A essência das coisas dura o tempo das mesmas, dura o tempo de tudo e enquanto tudo ainda for digno de um tudo sem fim, o mesmo se fará tão prolixo quanto o eterno. E a eternidade é digna apenas daqueles que não poupam gratidão á sua matéria prima. Gratos seriamos se vestíssemos a sinceridade de nossas essências empoeiradas com o mesmo orgulho que vestimos nossos rótulos diários.

Mas que essência seria essa afinal? Quem ousa saber? Quem ousa crer que ela ainda exista? Quem? No fim, estamos tão adaptados, ou melhor dizendo, alienados pelas coisas que compõe nosso mundo e também nossa personalidade, que seria extremamente difícil de se encontrar em nós algum vestígio sincero de nossa tão legítima essência. Pois ela é a maior prova de que somos, sendo seres completamente dignos da magia de ser. Mas de ser como ser e não superficialmente pelo mísero fato de existir, pois pela mera existência também sinto um pouco de resistência.

Porém não podemos negar a nossa semelhança com os produtos, afinal, somos produzidos, supervisionados e então, simplesmente aceitos ou jogados fora. Assim são os produtos, assim somos nós. Produzimos diariamente coisas e humanos, que por serem tão mais coisas que humanos, renunciam o próprio fato de ser. Não vai demorar muito para rotularmos nossas almas, assim como muitos já vendem seus sentimentos e seus valores, que não, não existem mais. Pois também, é notável que até a essência da vida anda descuidada, suja e poluída, talvez nosso reflexo, talvez nós.

Sinto-me perdida em meio a tantas ilusões e superficialidades e me desoriento de tal forma que me atrevo á pensar que penso, penso que a materialidade excessiva é e sempre foi um grande equivoco. Então tento me despir de tudo o que não é meu, de toda a falsidade e hipocrisia plastificada que cruelmente cobre meu corpo, envolve meus cabelos e enlouquece meus já tão perturbados sentimentos. E noto que não posso mais. Contenho em mim uma dose do mundo que me é fatal. E tenho medo, pois, precisaria me tirar de mim para novamente me dar ao luxo de ser. Mas não consigo, e no fundo nem quero. Pois querendo ou não sou tudo o que me resta, mesmo sendo o resto de tudo.