segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dunga, Globo e a Imprensa

Texto de Flávio Gomes

Eu tinha falado da democracia dunguiana no primeiro dia da Copa. Elogiando o fato de que seus coices eram distribuídos em igualdade de condições, para todo mundo. E que isso significava que a proprietária da seleção nos últimos anos, a TV Globo, estava recebendo o mesmo tratamento. Nada de privilégios, nada de Ana Maria Braga e Louro José dormindo na concentração, nada de links com o Faustão, nada de soletrando com Luciano Huck. Ótimo. E que os jornalistas da Globo, sem privilégios, teriam de fazer coisas diferentes nesta Copa, que iriam além de incluir a seleção inteira, jogadores e comissão técnica, no seu casting particular. Era assim antes. E as outras emissoras ficavam do lado de fora, marginalizadas, aguentando os sorrisinhos e as trocas de gentilezas entre selecionados e globais. Um mundo à parte, como se seleção e Globo fossem a mesma coisa, parte da mesma engrenagem. A Globo tem negócios com a CBF, todos sabem, e sempre usou isso para fazer seu jornalismo babaca-ufanista, aquele que, como me disse um repórter da própria um dia, exige que alguém chore para que apareça no "Jornal Nacional" — o Juninho tinha quebrado a perna, perderia a Copa, o repórter estava por perto, sugeriu ir para a Inglaterra fazer matéria, ouviu do outro lado: "Ele vai chorar? Se chorar, dá JN. Se não chorar, não precisa nem gerar as imagens". Isso, com Dunga, felizmente acabou. Permanece a babaquice ufanista, tanto que o slogan da emissora neste ano é algo como "torcer para o Brasil é nosso esporte". Mas, de fato, Dunga não dá moleza aos globais. Isso não significa, porém, que ele pode ser um cavalo com todo mundo, disparando palavrões, afrontando repórteres e comentaristas. Sejam eles de onde forem. O episódio de ontem com Alex Escobar, da Globo, que levou a emissora a um editorial lido no "Fantástico" — e me pareceu meio bobo, porque faz anos que Dunga é cavalar e a Globo só foi fazer biquinho agora —, é apenas mais um nessa extensa lista de atitudes descabidas do treinador. Dunga é um bronco mal-educado. Desnecessariamente agressivo, hostil, mal-humorado. Um bocó. Como disse há dez dias, o único ponto a seu favor é que é assim com todos. E isso num ambiente que, no passado, tinha gente parecida que virava florzinha quando aparecia um microfone global à frente. Dependendo do ponto de vista, é um progresso. Mas, no fundo, é triste e cafona.

Flávio Gomes, jornalista da ESPN e colunista do IG, veja aqui a reportagem em seu blog no IG.