domingo, 28 de junho de 2009

Seleção sem povo

De 1958 a 1982, o Brasil teve um caso de amor com sua seleção de futebol. E ela fazia por onde: venceu três Copas do Mundo, jogou partidas memoráveis no Maracanã e no Morumbi e consagrou três gerações de jogadores. Havia mais craques na praça do que vagas no time, e nada superava a honra de uma convocação. Fora da seleção, esses jogadores entravam em campo todos os domingos por seus clubes - nossos clubes. Podiam ser amados ou odiados no fragor doméstico, mas, no que vestiam a camisa amarela, cessava o vodu. A seleção tinha até torcedores próprios, e não apenas entre os que só se ligam em futebol na Copa por um vago ardor patriótico. Mas isso acabou. A seleção é, há muito, um feudo de jogadores que atuam no exterior, defendendo camisas com as quais nada temos a ver. Por vários motivos, também não a assistimos em nossos estádios - há sete anos, por exemplo, ela não joga no Rio. E, como aconteceu na última Copa, a seleção, convocada na Europa, não veio ao Brasil nem para pedir a bênção do povo que representava. Deu no que deu. As razões são muitas, mas o fato é que a seleção se divorciou do povo. Não é mais o Brasil. Reduziu-se a uma legião estrangeira que, mecanicamente, canta o hino antes do jogo. Ex-ídolos nacionais como Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho preferem jogar por seus milionários clubes que pela seleção. E estão certos: só quem vai à Europa sabe o que eles representam em paixão para os torcedores desses times. São deuses em Milão, Barcelona, Madri. Vem aí uma opaca Copa América. Os craques a desprezam e a torcida brasileira, com razão, também não está nem aí. Qualquer campeonato local envolvendo o Arapiraca, o Botucatu ou o Cascavel será mais emocionante, se um desses for o nosso clube de coração. A camisa precisa estar perto do peito (RUY CASTRO, 18/06/2007, fonte: Folha de S. Paulo, 28/06/2009).

Colo aqui no blog o texto de Ruy Castro porque o jogo de hoje vez ver uma coisa diferente. Não tem como estar indiferente se após uma conquista os jogares se ajoelham sobre o tapete sagrado, formam um grande círculo e rezam agradecendo as benções e a confiança do povo. O futebol foi o menor dos detalhes, mas o abraço depois de cada gol, a raça pela bola quase perdida, o espírito de luta quando tudo estava 'quase' condenado mostrou um espírito diferente. Esta seleção pode não ser dos sonhos, mas é um caso de amor. Até hoje não havia confiança mas o gesto do pós-jogo falou mais que muitos esquemas táticos.