sábado, 17 de janeiro de 2009

Sensatez e felicidade


Antes de falar qualquer coisa a respeito do tema, quero apontar uma definição clássica de felicidade defendida pelo pensador grego Epicuro (341 – 270 a.C.) encontrado em seus fragmentos. Ele defende que: "nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza". Em suma a felicidade se concentra na ausência de dor no corpo e de perturbações na alma, aquilo que ele chamava de ataraxia. Somente neste estado de superação da dor e das perturbações o ser humano vai conseguir a plena satisfação em todas as suas atitudes.
A sensatez é relativa à ponderação, ao equilíbrio, a atitude de quem é comedida. Todos estes valores estão ligados intimamente a filosofia de Aristóteles (384 – 322 a.C.). Mas no centro das discussões, elas não podem caminhar juntas, de acordo com o olhar epicurista. Ser sensato é buscar um reto agir de acordo com um conjunto de valores morais objetivos. Por vezes estas normas nos direcionam a agir sufocando sentimentos, lutando contra aquilo que o próprio coração está por sentir. Sensato, com certeza, porém, com a alma perturbada porque lhe é proibido desvendar novos horizontes e está preso a uma situação de escolhas, que por vez não fora creditada da forma que o sentimento desejava, mas, escolhas feitas.
O que pretendo dizer é que a sensatez não é uma chave segura para se atingir à felicidade porque ela pode (veja a condicional) trazer conflitos internos, e se há conflitos, haverá perturbações subjetivas ou na alma como diria Epicuro. Se há perturbação, não há felicidade. Confuso? Vejamos então a obra do Exupéry: o pequeno príncipe ao viajar, fez motivado pela felicidade se tivesse sido sensato estaria ali cuidado eternamente de sua flor vaidosa, que não era modesta, mas era envolvente e revolvendo seus vulcões, mas ousou enfrentar o desconhecido e ousou opor-se a dor e as perturbações através da simplicidade de cada ato corriqueiro. Mas o que realmente escolhemos? Escolhemos a sensatez supondo que ela nos trará a felicidade.