terça-feira, 7 de outubro de 2008

A MELHOR DE TODAS AS VIDAS

Texto de Aloísio Dozza Dias

Nadei em riachos, engoli peixinho porque aprendia a nadar, chupei jabuticaba no pé até não me aguentar mais em pé, armei arapuca para pegar passarinho. Depois soltava da gaiola, escondido, para desespero do meu irmão mais velho.

Corri para o quintal para ver avião desenhando rastro no céu. Tomei banho em caixa d'água. Joguei futebol no campo do bambuzeiro, que não tinha grama, mas uma terra preta. Apanhei da minha mãe porque a roupa ficou imunda.

Construí pipa, que se chamava papagaio, com vareta de bambu que a gente mesmo cortava e afiava até ficar leve o suficiente. Amarrávamos com linha que a gente surrupiava da caixa de costura da mãe. Papel era de seda e só isso a gente comprava. Colávamos com grude, que era uma cola feita de polvilho. Depois era soltar e catar em cima da árvore, onde invariavelmente o papagaio caía.

Mas a gente tinha tecnologia também. Falei muito ao telefone, que fazíamos com uma caixinha de fósforo vazia, um palito e barbante (olha a caixa de costura da minha mãe sendo assaltada de novo). Eu me escondia atrás do pé de mangueira para fingir que não estava a dois metros do amigo que falava do outro lado. Não, eu estava na China...

Tinha carro próprio: o trolinho de madeira quem fazia geralmente eram os moleques mais velhos. Mas a gente ajudava. O rolimã era a roda: a gente ganhava nas oficinas mecânicas. O volante era um pedaço de corda velha. O freio era à sola. Do pé, claro.

Fui Tarzan várias vezes, e meu grito ecoava mais do que o dos outros. Os outros também achavam o próprio grito o mais alto. Quando cansava, eu montava no Silver (personalidade secreta do cabo de vassoura) e vestia minha imaginária capa de Zorro e não parava bandido por perto. Eu era valente, muito valente. Menos quando minha mãe chamava para jantar.

Eu tinha um gato que falava comigo. Travávamos sérias discussões sobre o formato das nuvens. O gato nunca concordava comigo quando eu dizia que aquela nuvem maior era um navio. Navio não voa, ele dizia. Mas eu sabia que voava.

Eu não era criança, nunca fui. Eu era pirata, Capitão Gancho. Era cowboy. Era piloto de avião. Tá, às vezes eu era avião, mas quem resiste a uma rajada de vento soprando o rosto num dia de calor? Eu cacei leões, lutei com eles, me arranhei todo e no final cada um saiu cantando vitória.

Um dia eu me sentei sob uma pedra, braços cruzados sob as pernas dobradas, a cabeça enfiada entre os braços e adormeci. Quando acordei eu tinha um celular na mão, um 'estilo de vida' e não me lembrava mais do nome do inimigo do Zorro. Aí tudo ficou muito, muito sem graça...