sábado, 2 de agosto de 2008

A EXPERIÊNCIA DO PENSAMENTO ALARGADO

Nós, indianos, emigrados da Índia [...] levávamos basicamente vidas ritualizadas e não éramos ainda capazes da auto-avaliação necessária para começar a aprender [...] Em Trinidad, onde, recém-chegados, formávamos uma comunidade inferior, a idéia de exclusão era uma espécie de proteção que nos permitia, por pouco tempo, viver à nossa maneira e segundo nossas próprias regras, viver em nossa própria Índia que se apagava. Daí um extraordinário egocentrismo. Olhávamos para dentro; vivíamos nossos dias; o mundo de fora existia numa espécie de escuridão; não nos interrogávamos sobre nada...

Mas quando o livro foi concluído, tive a sensação de que tinha tirado tudo o que podia de minha ilha. Inutilmente refleti, nenhuma outra história me vinha. O acaso veio então em meu socorro. Tornei-me um viajante. Viajei pelas Antilhas e compreendi bem melhor o mecanismo colonial do qual havia feito parte. Estive na Índia, pátria de meus ancestrais, durante um ano; essa viagem dividiu minha vida ao meio. Os livros que escrevi durante essas duas viagens me alçaram a novos reinos de emoção, deram-me uma visão do mundo que nunca havia tido, ampliaram-me
tecnicamente.

Naipaul. Fragmento do discurso citado por ele por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura em dezembro de 2001.