sábado, 20 de janeiro de 2007

Por que mentimos?

Não pretendo nas próximas linhas fazer um exame de consciência, apenas resenhar algumas anotações sem pretensão alguma. Durante a semana tentei resolver esse dilema. Nietzsche, Schoppenhauer e Kierkegaard, foram em vão. Pensei em diversos problemas de ordem filosófica, recorri ao utilitarismo de Mill, achei boas respostas, mas nenhuma me convenceu. Será a mentira um problema de ordem moral? Ou aquilo que os outros julgam seu contrário, a verdade, uma pseudo-satisfação da moral dominante?
Recorri ainda a canção “Eu Menti” (Nenhum de Nós, 2001) para tentar relacionar a mentira com uma possível situação concreta, mas “procure ouvir meus motivos [...] a verdade sozinha não é capaz de explicar o que eu sinto, as verdades que eu digo nas vezes que eu minto”.

Então, há verdade na mentira? Dilemas e mais dilemas. Porém quero refugiar-me da subjetividade e tentar ser, em certo grau, objetivo. A mentira está presente na história do homem, vejamos na Bíblia, no Gênesis os patriarcas por inúmeras vezes sucumbiram em nome de um deus: Abraão para com seu filho e a esposa de Isaac, por citar apenas dois; Galileu Galilei diante da inquisição; Cristóvão Colombo a sua tripulação e também Bush com as armas químicas iraquianas. Nossa história é uma história de mentiras. Parece que em tudo há uma forte motivação de ordem “moral” (Nietzsche deve estar se revirando no caixão) para cumprir determinados feitos. Recorre-se a não verdade para tentar justificar fracos argumentos. Os exemplos que aqui trago, mostra os personagens tentando justificar aquilo que acreditavam: o sacrifício filial e a herança, a ciência, o descobrimento e o poder, através de elementos não concretos. Mas a motivação tem um fim, um propósito para o personagem garantir um determinado status sem uma boa argumentação. Recorre-se a este recurso – a mentira – para suprimir os fracos argumentos.

Abraão, por amor e temor a um deus, engana seu filho e o leva para o altar do sacrifício, mas um “anjo” intervém, porém, mentiu ao filho conduzindo-o a local. Por melhor que fossem os argumentos astronômicos de Galileu, a moral dominante católica não permitia sua publicação, então diante da pena, ele renuncia suas pesquisas para garantir a vida – a mentira como instrumento de vida. A tripulação de Colombo estava desacreditando seu chefe, queriam matá-lo ao longo da viagem sem fim, mas motivado pela glória da conquista larapia seus tripulantes com a certeza das Índias Orientais, e Bush permitiu um número maior de mortos do que Osama no WTC para justificar a implantação da democracia (antes fosse isso). Se os grandes heróis de nossa dita história civilizada usaram desse recurso pútrido, o que dizer de nós pobres mortais, vítima de uma moral vazia dominante que impregna valores de modo utilitarista, possam sobreviver a “tentação da mentira”? Se falar da perspicácia dos personagens fictícios de Shakespeare.

Não quero ser um defensor da mentira, apenas mostrar que os homens são seduzidos pelos próprios limites – inconstantes e frágeis pobres homens!

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